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Uma visão inusitada do empreendedorismo em “O Abutre”

Claudia Bozzo Não dá para piscar em “O Abutre”, da mesma forma como parece estar sempre atento e vigilante seu ator principal, Jake Gyllenhaal, os olhos em destaque, contornados pelas […]

28/12/14

Claudia Bozzo

Não dá para piscar em “O Abutre”, da mesma forma como parece estar sempre atento e vigilante seu ator principal, Jake Gyllenhaal, os olhos em destaque, contornados pelas profundas olheiras e uma constante vigília. O ator interpreta Louis Bloom, um ladrãozinho de fios de cobre e tampos de bueiros, em busca de um trabalho e equipado de um discurso que parece ter sido fabricado por um treinador de empreendedorismo. Ele tenta “vender” sua imagem com discursos saídos de manuais corporativos.

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Entre um comprador e  outro de sua sucata, na Los Angeles das noites e madrugadas, ele se depara quase que por acaso com um acontecimento que vai reescrever seu roteiro de vida: a possibilidade de tornar-se um paparazzo de crimes, acidentes e qualquer outro acontecimento que envolva sangue e drama na soturna cidade. Esse conto de fadas em direção ao sucesso nos negócios é uma visão satírica, dramática, extremamente crítica da cultura corporativa norte-americana. O que complica é o fato de o personagem central, Louis Bloom ser, sem qualquer sombra de dúvida, um verdadeiro psicopata.

Sim, o olhar de Gyllenhaal, excelente no papel, é talvez a peça mais forte desse filme, ajudado pela direção de fotografia, que faz da cidade o cenário perfeito das cenas que são apresentadas nos canais de notícias. Sempre com o sangue escorrendo.

Depois de cruzar com uma equipe que está filmando um acidente de trânsito, ele descobre sua vocação. E segue à risca as dicas do experiente cinegrafista encenado por Bill Paxton, Joe Loder: uma câmera nas mãos, o rádio da polícia para acompanhar os incidentes e sagacidade para ser o primeiro na cena do crime. A primeira câmera ele consegue roubando uma bicicleta e aos poucos vai vendo que gosta de fazer aquilo. É organizado, disciplinado, determinado e intenso.

Consegue aos poucos ser o free lance exclusivo de uma pequena rede de TV, onde a diretora de noticiário, René Russo, que enfrenta o final de seu contrato de dois anos na emissora e vê nos vídeos dele a possibilidade de manter-se no cargo. Mas claro, não existe mesmo essa ficção de “almoço gratuito”. E ela o orienta na busca do que rende mais audiência: conflito em áreas mais nobres da cidade, envolvendo brancos. “Quero algo que as pessoas acompanhem”, diz. Ele mais tarde vai se encarregar de apresentar a ela suas exigências. A necessidade de negociar sempre está presente nos diálogos de Bloom, seja ao vender material roubado, seja ao contratar um “estagiário” que o acompanhe nas caçadas noturnas, seja ao lidar com a diretora do telejornal.

Há muitas condições incorporadas ao fornecimento de material quente e exclusivo. Para começar, o preço, que Bloom negocia com destreza. Impressionada pelo discurso ‘corporativo’, ela pergunta a ele onde foi que teve acesso a tais conhecimentos. Na internet, ele responde candidamente. Com paciência, diz, é possível encontrar tudo o que se quer. E menciona mesmo que fez um curso para tornar-se um empresário.

É o filme de estreia de Dan Gilroy, que o escreveu e dirigiu. Antes disso, fez roteiros como o de “Tudo por Dinheiro”(2005), com Al Pacino, Matthew McConaughey e René Russo (com a qual é casado), sobre o mundo dos esportes. Escreveu também “O Legado Bourne” de 2012. Um primeiro filme que tem pulso, segurança e acima de tudo, um foco: mostrar os subterrâneos de “abutres” como o vivido por Bloom. Seres noturnos que rastejam em busca de desgraças. E ele encontra uma das grandes: consegue chegar a uma cena de crime, quando este  ainda está em andamento. Filma os assassinos fugindo, a família morta. E isso o leva às alturas: exige na TV que seu vídeo seja exibido em nome da sua firma, a Video News Productions, com o complemento  “uma empresa independente”.

Fica bem claro que a intenção do diretor e roteirista é retratar a América corporativa. Junto vai a pesada constatação de que a tal de imprensa marrom se nutre mesmo de um público tão marrom quanto ela (como explicar a audiência desse tipo de programa, sem essa racionalização?). Inevitável a proximidade com “A Montanha dos Sete Abutres”, a obra-prima de Billy Wilder de 1951. Mesmo os alertas ao público, de que “as cenas a seguir têm um forte conteúdo” revelam que ao invés de afastar os espectadores, funcionam como um imã. E sem ser um filme de ação, “O Abutre” funciona como tal, com perseguições pelas ruas e Los Angeles e uma trama entremeada de suspense.

Foi escolhido pelo importante jornal britânico The Guardian como um dos dez melhores filmes de 2014. Lista da qual constam também “O Grande Hotel Budapeste”, “Dois Dias uma Noite” (dos irmãos Dardenne) e “Boyhood”. Forte, crítico, irreverente e muitas vezes vendo o trágico sob a lente do humor, “O Abutre” é mesmo um grande filme.


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