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Uma Hollywood que foi à guerra santa

Claudia Bozzo Assediada agora pela acusação de racismo, por incluir poucos atores negros em sua premiação do Oscar, Hollywood sempre foi vigiada de perto, bem de perto. Chegou a ter […]

31/01/16

Claudia Bozzo
Assediada agora pela acusação de racismo, por incluir poucos atores negros em sua premiação do Oscar, Hollywood sempre foi vigiada de perto, bem de perto. Chegou a ter um código de moralidade, o Código Hayes criado pelo presbiteriano Will H. Hays, que dominou a produção dos grandes estúdios, de 1930 a 1968!

Até parece coisa de governo iraniano, como mostrou recentemente o filme de Jafar Panahi, “Táxi Teerã”, no qual a sobrinha do diretor comenta as normas para se fazer um filme “aceitável” no país, que lhe foram transmitidas por uma professora.

Hays era presidente da associação que reunia produtores e distribuidores de filmes dos Estados Unidos (a MPPDA) e o código que ele impôs ao setor esclarecia o que era aceitável – ou não – como conteúdo para filmes produzidos para o público norte-americano. Eram os famosos “Don’ts” and “Be Carefuls” (“O que não se deve fazer” e “Com cuidado”, em tradução livre) e incluíam evitar a menção irreverente de palavras como ‘deus’, ‘Jesus’; ou então licenciosidade e sugestão de nudez; tráfico de drogas; perversões sexuais; escravidão branca; miscigenação (relacionamentos entre brancos e negros); ridicularizar o clero e outras normas tão surrealistas quanto essas.

Captura de Tela 2016-01-31 às 20.05.01

Pois houve coisa tão ruim quanto o Código – ou pior – lá na terra do cinema. Foi a famosa “caça às bruxas” desencadeada contra atores, roteiristas e funcionários de esquerda, na década de 1950 – e que serviu de plataforma para políticos como o senador Joe McCarthy e o ator Ronald Reagan – que agora chega às telas em momento bem oportuno, “Trumbo – Lista Negra”. É lançado justamente quando os republicanos à direita da direita colocam as manguinhas de fora apostando suas fichas em Donald Trump.

“Trumbo”, indicado ao Oscar como melhor filme, anda pelos mesmos caminhos do bem superior “Testa de Ferro por Acaso” (1976), de Martin Ritt, com Woody Allen. Seu diretor, Jay Roach, tem um currículo bem modesto, que apesar de incluir filmes como o interessante “Recontagem” de 2008 (sobre o impasse na eleição de George Bush contra Al Gore durante a apuração dos votos na Flórida, feito para a HBO), é diretor também dos fraquinhos “Entrando Numa Fria” (2000), “Austin Powers – O Agente Bond Cama”, de 1999 e a refilmagem do ótimo francês “O Jantar dos Mala”, de Francis Veber, relançado em 2010 nos EUA como “Um Jantar para Idiotas”, do qual se recomenda fugir. Também foi produtor dos dispensáveis “Bruno” (2009) e Borat”(2006).

“Trumbo – Lista Negra”, apesar da nobre intenção de trazer justiça a um dos maiores roteiristas do cinema norte-americano, e incluído nas lista dos Dez de Hollywood, os “perigosos” comunistas da indústria do cinema, é um filme sem grande brilho. O ator principal, Brian Cranston, cuja popularidade veio de uma série de TV, “Breaking Bad” tem uma atuação bastante competente, coerente com seu personagem e outra que se destaca é Helen Mirren, no papel de uma das víboras favoritas dos americanos, Hedda Hopper, ex-atriz que exerceu toda sua maldade em uma coluna para o jornal Los Angeles Times, contando as fofocas do meio cinematográfico, assim como sua arquirrival, a não menos venenosa Louella Parsons. Hopper, além de aliar-se às sinistras figuras do macarthismo, é lembrada também por sua campanha contra Charles Chaplin, que acabou sendo proibido de entrar nos Estados Unidos.

Pois Trumbo enfrentou a prisão e dez anos de clandestinidade por manter-se fiel aos seus princípios. Era comunista? Ele mesmo definiu que o comunismo passou pela vida dele, mas teve tanta importância quanto uma gripe. Mesmo porque era o que hoje se chama “esquerda caviar”, com seu grupo de amigos e produtores, todos bem de vida, com Matisses e Renoirs na parede. Mas a inclusão na lista provocou sua demissão do estúdio dirigido por Louis B. Mayer e para sobreviver e manter a esposa e os três filhos, acabou escrevendo roteiros para qualquer tipo de produção. Durante dez longos e fatigantes anos.

Criou uma rede alternativa de roteiristas, que usando pseudônimos, alimentavam a indústria com roteiros. E ganhou, na clandestinidade, dois Oscars, um deles por “A Princesa e o Plebeu” (1953), filme com Gregory Peck e Audrey Hepburn. Foi também diretor, do excelente “Johnny vai à Guerra”, de 1961, aí já fora da clandestinidade. Seu retorno se deveu, como bem lembra o filme, ao diretor Otto Preminger e ao ator Kirk Douglas, que decidiram colocar seu nome nos créditos de “Exodus” e “Spartacus, ambos de 1960.

Para quem gosta de cinema, um bom petisco, mesmo que fraco de tempero.


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