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Um retrato nada “fake” de Donald Trump

Claudia Bozzo Documentário da Netflix traz imagens, entrevistas e declarações sobre o poderoso Trump, cujo filme favorito é “Cidadão Kane” Ele não sai das manchetes. Falem mal (e ele vai […]

09/04/18

Claudia Bozzo

Documentário da Netflix traz imagens, entrevistas e declarações sobre o poderoso Trump, cujo filme favorito é “Cidadão Kane”

Ele não sai das manchetes. Falem mal (e ele vai dizer que “só inventam mentiras”) mas falem de mim, parece ser o lema de vida de Donald Trump. E como se não bastassem os jornais e noticiários trazendo a insensatez do dia, agora também a Netflix traz um documentário sobre o presidente americano: “Donald Trump: Um Sonho Americano”.

Em episódios – a primeira temporada tem quatro – cerca de 40 anos da atuação do “sonho” que mais se parece com um “pesadelo” retratando o magnata imobiliário são revelados num documento bem pesquisado e rico em entrevistas e imagens de época.

E não para por aí. A Netflix tem outra série na mesma linha – que inclui Trump entre os retratados – chamada “Na Rota do Dinheiro Sujo” com seis histórias de ganância, dos mesmos produtores do documentário sobre a Enron e “Going Clear” (este retratando a cientologia). A série é sobre o que os americanos chamam de “con man”, uma abreviação de “homem de confiança”, ou seja, aquele tipo de pessoa que se aproveita da boa fé de outros para tirar seu dinheiro. “Con” trambém pode ser traduzido como trapaceiro.

A série sobre Trump vai às origens da carreira de um dos quatro filhos da família do Bronx, cujo pai, Fred Trump ficou rico com empreendimentos, no Brooklin e em Queens, e que no documentário aparece como um homem de bem, que construía moradias para pessoas de menor poder aquisitivo.

Os episódios confirmam que Trump sempre foi Trump. Sua famosa “Trump Tower”, que ocupa um dos quarteirões mais valiosos de Nova York, onde antes estava instalada a famosa joalheria Tiffany’s (aquela que aparece em “Bonequinha de Luxo”, de 1961) foi construída às custas de isenções fiscais milionárias, válidas por 40 anos, apesar da resistência do então prefeito nova-iorquino, Edward Koch, que acabou perdendo a batalha na justiça.

Trump tinha ao seu lado um advogado, Roy Cohn, que se tornou famoso graças à atuação ao lado do senador Joseph McCarthy. Segundo o siteInsiderPro, Cohn, o advogado “que abraçou a infâmia” no macarthismo foi “um mentor para a falta de vergonha ou o homem que ensinou o poder da publicidade a Trump”.

A série revela as artimanhas de Trump, com a construção dos cassinos em Atlantic City (ambos falidos) – sempre às custas de incentivos fiscais – seu casamento com Ivana, mãe de três de seus filhos – rejeitada apesar de seu natural talento para negócios, o caso com Marla Maples, que acabou tornando-se durante dois anos sua segunda esposa, e a terceira e atual, a eslovena Melania.

Sua irrefreável megalomania o conduz a uma época em que nada o detém, e ele sai comprando tudo que consegue. Resultado: recorreu a seis falências, e como gabou-se em debate com sua opositora Hillary Clinton, ficou ainda mais rico, graças à sua esperteza em negócios. Tem tanta fé nisso que escreveu um livro, “A Arte da Negociação”. Coloca na classificação de “fake news” as afirmações de órgãos especializados em negócios, de que não é tão rico do jeito que diz ser.

Claro, não é um documentário que vai deixar seu espírito mais leve. Na verdade, chega a ser deprimente ver que um homem desses ocupa um cargo tão importante e tenha tanto poder. De qualquer forma, é melhor saber.


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