X

Um novo caminho para o cinema norte-americano

Claudia Bozzo O Oscar deste ano mostrou o poder da mobilização e dos grupos de pressão. Mesmo que os filmes abordando a questão racial tenham sido todos gestados e produzidos […]

05/03/17

Claudia Bozzo
O Oscar deste ano mostrou o poder da mobilização e dos grupos de pressão. Mesmo que os filmes abordando a questão racial tenham sido todos gestados e produzidos na época em que Barack Obama era presidente do país, o resultado com certeza trará impactos de longa duração.

Ainda mais por serem resultado dos protestos contra a seleção de 2016 para o prêmio, que ignorou a presença dos talentos negros, reconhecidos este ano. O diretor do premiado “Moonlight – Sob a Luz do Luar”, Barry Jenkins, depois de afirmar que seu filme é um “farol de inclusão”, acrescentou que ele fora feito em outra administração, “quando eu me sentia seguro”. O espaço agora não é “tão seguro”.

Mas o saldo é positivo, interessante, esclarecedor e provavelmente, didático. Esta semana estreou “Um Limite entre Nós”, dirigido por Denzel Washington, que resultou em prêmio de interpretação para a talentosa Viola Davis, com sua forte presença como Rose, papel que ela interpretou no teatro (também premiado), em filme que traz para a tela uma das muitas peças de August Wilson, “Fences”, de 1987, premiada com o Pulitzer.

Captura de Tela 2017-03-05 às 18.00.58

A presença de Denzel (Troy) impõe grande força ao coletor de lixo, na Pittisburgh dos anos 1950, que logo nos primeiros diálogos afirma seu desejo de tornar-se motorista, serviço reservado apenas aos brancos. Ele é o centro do pequeno mundo que ocupa com a segunda mulher, Rose o filho Cory e a presença esporádica de Lyons, filho do primeiro casamento de Troy.

Em uma das brigas com o filho mais novo, que não quer ver como jogador de futebol, por ter tido fraco reconhecimento na mesma carreira, pelo fato de ser negro, Troy recusa-se a ouvir da mulher, do amigo e dos filhos a argumentação de que “as coisas mudaram”. O rapaz chegou mesmo a ser sondado por um caçador de talentos e recebe o convite para ser jogador por uma universidade.

O conflito soma-se a outros desentendimentos, e Rose assume o papel de verdadeira escora da família. Vemos o como ela cresce em importância, em nome da sobrevivência da família, centro de sua vida. Em silêncio, recolhida aos seus fortes valores e crenças.

O fato de o filme ser baseado em peça de teatro causa certo estranhamento no começo, mas a imersão no drama é tão profunda, que isso fica de lado. É cinema, na sua mais expressiva afirmação, e sua força cresce a partir da presença atores com tanto gabarito como Denzel Washington e Viola Davis. Como que marcando uma linha do tempo, há detalhes sutis que inserem o passar do tempo. Um deles, a foto de Martin Luther King ao lado da de John Kennedy.

Nas telas, há filmes para todos os gostos e essa imersão na história da segregação racial que vigorou – e vigora – nos Estados Unidos é muito rica. Vem na forma de dois excelentes documentários, um deles já comentado neste espaço, “O.J.: Made in America”, apresentado em 10 episódios na ESPN, sobre a absolvição do astro do futebol americano, acusado de matar a ex-esposa e um amigo dela. O documentário está disponível para quem assina o canal de esportes e merece ser visto, pela rica documentação que o diretor Ezra Edelman reuniu, ouvindo a maior parte das pessoas envolvidas no caso.

O Netflix está apresentando uma série sobre o mesmo caso, que é uma versão dramatizada dos eventos, “American Crime Story- O Povo Contra O. J. Simpson”, com John Travolta no papel de um dos advogados do jogador. Com a promessa de quatro temporadas pelo menos, a série é interessante, mas sem a profundidade do documentário.

O outro documentário que o Oscar ajudou a trazer para nossas telas foi “Eu Não Sou Seu Negro”, uma coprodução EUA, França,  Bélgica e  Suíça, que parte de uma carta do escritor James Baldwin seu agente, com um pedido: “terminar o livro ‘Remember This House’, sobre vida e morte dos amigos do escritor, Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Junior.  Com a morte do escritor em 1987, o manuscrito inacabado foi confiado ao diretor Raoul Peck, e o resultado é essa obra, ainda em exibição em São Paulo.

Baldwin, nascido no Harlem, conta em trechos de entrevistas apresentadas no documentário, que foi morar em Paris por não se sentir seguro em seu próprio país. Escreveu “Giovanni” e em Istambul encerrou “Numa Terra Estranha”, iniciado em Nova York, que conta a saga de Rufus, um baterista de jazz negro que se apaixona por uma sulista loura e se joga da ponte George Washington, em Nova York. A história foi inspirada em episódio real.

De volta aos Estados Unidos, aderiu a uma aliança de intelectuais, artistas e militantes, que na década de 1960 enfrentaram dias de tormenta e resultaram no assassinato de três dos mais importantes líderes do movimento, lembrados no documentário.

Já “Moonlight – Sob a Luz do Luar” traz o conflito para os dias atuais, começando na década de 1980, num subúrbio pobre de Miami Além de ter sido escolhido o melhor filme, numa das mais bizarras premiações do Oscar, teve o prêmio de melhor coadjuvante para Mahershala Ali, o versátil ator que constrói sua carreira com papeis como o do lobista em “House of Cards”, e está também em “Estrelas Além do Tempo” além de alguns “Jogos Vorazes” além da interessante série da HBO, “Treme” (2011), sobre a fase de reconstrução de Nova Orleans. Chiron é o menino (interpretado por três atores) que cresce em meio a dúvidas que pedem uns versos de Chico Buarque de Holanda em “O que será que será”: “Que enfrenta dúvidas. O que não tem governo nem nunca terá. O que não tem vergonha nem nunca terá. O que não tem juízo”.

O que impressiona nos filmes escolhidos não é a temática afro-descendente. É sim, o excepcional talento que foi colocado à parte na premiação do ano passado. Mas que daqui para a frente deverá ser encarado com maior seriedade, por trazer o cinema norte-americano de volta à categoria de um cinema de qualidade, seja por atores, roteiros e temáticas.

E “La La Land”? Ora, alguém realmente se importa com ele?


Todos os direitos reservados, 2019.