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Um filme inesquecível sobre os esquecidos

Claudia Bozzo Existem atores que a gente só descobre que assistiu filmes nos quais eles trabalharam quando vai ao InternetMovieDatabase (www.IMDb.com). Esse é quase o caso de Eddie Marsan, do […]

06/07/14

Claudia Bozzo

Existem atores que a gente só descobre que assistiu filmes nos quais eles trabalharam quando vai ao InternetMovieDatabase (www.IMDb.com). Esse é quase o caso de Eddie Marsan, do qual é impossível esquecer, depois de ter assistido “Uma Vida Comum”, de 2013, em exibição no Cinesesc. Um filme que se enquadra na categoria de “pequenos grandes filmes inesquecíveis sobre pessoas comuns”.

Eddie Marsan é o irritadiço instrutor de autoescola em “Simplesmente Feliz”, que Mike Leigh dirigiu em 2008; é ainda o marido de Imelda Staunton em um dos filmes britânicos mais premiados em muitos anos, “O Segredo de Vera Drake”, de 2004, também de Mike Leigh. E uma imensa variedade de filmes, que vão de blockbusters a pequenas obras de arte e reais preciosidades.

Em “Uma Vida Comum” (“Still Life”), uma coprodução ítalo-britânica, dirigida por Uberto Pasolini, Marsan interpreta John May, funcionário público encarregado de localizar os parentes ou mesmo os conhecidos de pessoas que são encontradas mortas, sozinhas, em suas casas ou em outras situações. O elenco traz também Joanne Froggatt, uma das atrizes de “Downton Abbey”. Sem o uniforme, levamos algum tempo até lembrar quem é essa atriz, “tão conhecida”.

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John May, ele mesmo um solitário, faz o possível para descobrir fatos do passado que possam fornecer alguma pista sobre aquelas pessoas. Rende-se na maior parte das vezes ao fato de que elas ou são mesmo sozinhas ou ninguém quer saber delas e, mostrando o maior respeito, consegue descobrir pelo menos qual o gosto musical destas, para ter alguma música a ser executada no funeral, assim como pequenos detalhes sobre suas vidas, para os pequenos discursos de despedida que redige para os padres lerem na missa. E acompanha cada um dos funerais.

No papel de um melancólico, tímido e extremamente contido solteirão, Eddie Marsan brilha, sem dúvida. É um ator que já trabalhou com diretores como Martin Scorsese (em “Gangues de Nova York” de 2007, além de Michael Mann, Steven Spielberg, Terrence Malick, Woody Allen, Alejandro González Iñárritu, J.J. Abrams, Peter Berg, Guy Ritchie. É um dos favoritos de Mike Leigh, e além de  ter importante papel em “Tiranossauro”, de Paddy Considine, de 2011, está formidável como o advogado de defesa com T.O.C., na série “Law and Order UK”.

Sua presença confirma que não existem pequenos papéis, certamente, mas apenas atores menores. Em “Still Life”, o nome original do filme, que quer dizer natureza morta, Eddie Marsan traz ao personagem uma humanidade sem paralelo. Sua interpretação dá toda consistência à história escolhida por Uberto Pasolini, que apesar do sobrenome, é sobrinho de um outro famoso diretor italiano, Luchino Visconti. Ele dirigiu apenas um outro filme, “Machan” de 2008, não exibido por aqui. Mas é produtor de vários, entre eles o grande sucesso, “Ou Tudo ou Nada” (“The Full Monty”, de 1997).

Em uma entrevista a um site europeu de cinema, Pasolini, que vive no Reino Unido, diz ter optado por fazer esse filme porque ele trata da vida e não da morte. “É um filme sobre o valor da vida das pessoas”. É também sobre o isolamento, cada vez mais comum: “não há mais sensação de proximidade. Antes de iniciar o filme, eu não sabia quem eram os meus vizinhos também”. Recém-divorciado, o diretor comentou que depois de muitos anos com  a esposa e o três filhos, sabe o que é voltar para casa e sentir-se sozinho.

Também autor do roteiro, o diretor disse ter-se baseado em uma função que é denominada de “oficial de funeral” em todo o Reino Unido, depois de ler a entrevista de um deles num jornal de Londres, Pasolini acompanhou vários funcionários no exercício de suas funções e em funerais. Disse ter-se baseado em alguns deles para montar o personagem John May, com grande dose de realidade e pouco de ficção.

O importante é não sair do cinema antes de começarem a subir os créditos. Na sessão em que vi o filme, uma senhora, que externou seu descontentamento em voz alta, resolveu abandonar o que talvez tenha considerado um sofrimento. E perdeu uma das mais belas cenas, não só do filme, mas do cinema. Para se incluir em antologias.


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