X

Um encontro inevitável: Michel Gondry e Noam Chomsky

Claudia Bozzo Ninguém nasce impunemente em Paris, em maio de 1968,e depois torna-se cineasta, como Michel Gondry. E é claro que uma mente brilhante como a de Noam Chomsky estaria […]

15/12/13

Claudia Bozzo

Ninguém nasce impunemente em Paris, em maio de 1968,e depois torna-se cineasta, como Michel Gondry. E é claro que uma mente brilhante como a de Noam Chomsky estaria no caminho de Gondry de alguma forma. Como se houvesse uma conspiração cósmica tecendo o encontro dessas paralelas.

Inevitável pois, o encontro veio na forma de um documentário, “Is the Man Who Is Tall Happy?: An Animated Conversation with Noam Chomsky” (“É o Homem que é Alto Feliz?”: Uma Animada Conversa com Noam Chomsky”, em uma tradução livre), já apresentado este ano no Festival de Documentários de Nova York, e que está em debates e entrevistas pela internet, no YouTube e em sites alternativos.

Captura de Tela 2013-12-15 às 21.00.49

Gondry, diretor do interessante “O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (2004), do simpático “Rebobine Por Favor” ( 2008), do estranho “Besouro Verde”( 2011) e mais recentemente do dramático “A Espuma dos Dias” (2013), exibidos em São Paulo, recorre a ilustrações feitas por ele mesmo, durante essa conversa filmada, que vai do trabalho pioneiro de Chomsky na linguagem adquirida na infância às visões do professor em educação, família, religião a até astrologia.

Quando Gondry nasceu, o pensador, um dos intelectuais mais polêmicos, batalhadores e interessante de nossos dias, estava com 40 anos e um bom currículo em sua incansável militância. Doutoramento em Linguística pela Universidade da Pensilvânia em 1955 e PhD em Harvard, é catedrático no MIT, onde leciona há 40 anos. Está com 85 anos, completados há um mês. E tem mais de cem livros publicados, clareando ideias e semeando polêmica pelo globo.

Sua militância política acentuou-se a partir dos anos 1960, ao protestar contra o envolvimento dos Estados Unidos no Vietnã. Publicou “American Power and the New Mandarins” em 1969, tornando-se conhecido em todo o mundo por suas ideias e desde então, intercala política com linguística.

Nunca parou de pesquisar, escrever e ensinar, contribuindo regularmente com novas propostas teóricas que virtualmente definiram os problemas e questões centrais da investigação linguística nos últimos 50 anos.

É um dos maiores críticos dos meios de comunicação, que acusa de manipular a realidade de acordo com seus interesses. Mas a mídia o adora e ele foi definido pelo “The New York Times” como o mais importante intelectual vivo.

Foi no NYT que ele publicou um artigo, pouco antes da primeira eleição de Barack Obama, com um alerta a quem esperava muito dele e da proposta mudança: “Não há razões para supor que será diferente de qualquer outro tradicional democrata centrista.” Como estava certo.

Gondry contou à jornalista Amy Goodman, do site “Democracy Now!”, que a ideia de fazer um documentário com Chomsky veio do tempo que passou no MIT, como artista residente convidado. “Pedi para encontrar-me com ele, pois estava me reunindo com vários professores, como astrofísicos, neurobiólogos e outros. Fiquei realmente intrigado com ele e fascinado pela sua visão política no trabalho como cientista. Então tivemos várias reuniões, talvez três ou quatro. E levei a Chomsky a ideia de representar com animações, seu trabalho científico”.

Gondry explica que deu preferência à parte científica, por ter, como diz, “paixão pela ciência”.

A parte mais positiva foi ter conseguido apresentar o lado mais humano do cientista. “Ele é muito receptivo, muito honesto, e vive segundo seus princípios. Eu queria mostrar isso ao público.”

No filme, Chomsky fala de sua falecida esposa, Carol, lembrando que eram duas crianças quando casaram, ele com 20 anos e Carol com 19. Sobre a escolha do título, ela vem no documentário, em um dos diálogos dos dois sobre linguagem.

Se o professor gostou do filme?

Parece que sim. Segundo Gondry, “ele nunca assiste aos documentários, especialmente sobre ele mesmo. Mas esse, ele já viu duas vezes”.

Uma repórter perguntou a Gondry se Chomsky falou sobre seus medos. “Não, porque parece que ele não tem medo. Quer dizer, ele teme pelas mudanças climáticas. Em uma parte de nossa  conversa ele diz que vai levar algumas gerações até que as pessoas realmente comecem a aceitar suas ideias sobre linguística e filosofia. Perguntei se ficava chateado por não estar presente para ver isso e ele respondeu: ‘ sim, estou chateado porque não haverá ninguém’. E ele estava falando das alterações climáticas. Essa é sua principal – ou uma de suas principais preocupações no mundo.”

Enquanto o documentário não chega, seja na mostra “É Tudo Verdade”, que acontece no mês de abril de 2014 em São Paulo, ou na Mostra de Cinema, ou em algum canal pela TV a cabo, dá para ver muita coisa pelo YouTube. Claro que é mesmo só para atiçar a vontade. Mas com certeza vai chegar. Pelo menos estamos na torcida.


Todos os direitos reservados, 2019.