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Trump pode estar mexendo com fogo

Klaus Kleber Até um mês atrás, o presidente Donald Trump costumava amaçar os principais parceiros comerciais dos EUA com sobretaxas sobre determinados produtos e depois anunciar exceções ou abertura de […]

18/06/18

Klaus Kleber

Até um mês atrás, o presidente Donald Trump costumava amaçar os principais parceiros comerciais dos EUA com sobretaxas sobre determinados produtos e depois anunciar exceções ou abertura de negociações antes de impor gravames definitivos ou estabelecer cotas de importação.

Assim ocorreu com a imposição de sobretaxas sobre o aço o alumínio exportados pelo Brasil e outros países, deixando de fora os parceiros dos EUA no Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta) e os países da União Europeia (UE).

Agora, não mais. Numa escalada repentina, o protecionismo de Trump começou por sobretaxar também o aço e alumínio procedentes do Canadá e do México, seus parceiros no periclitante Nafta, bem como da UE, velhos aliados, esnobados na recente reunião do Grupo dos Sete (G -7). Em seguida veio a taxação sobre centenas de produtos tecnológicos chineses, no valor de US$ 50 bilhões.

Tudo parece indicar que Trump está de olho nas eleições de novembro, na qual serão eleitos governadores e membros do Congresso. E, do jeito que as coisas iam caminhando, ele poderia perder a maioria tanto na Câmara do Representantes como no Senado. Ele se assustou e resolver tomar medidas que agradariam suas base eleitorais, para as quais o protecionismo sempre teve muito apelo.

Não admira que congressistas democratas, que fazem oposição ao governo republicano, tenham manifestado apoio às decisões de Trump, particularmente no tocante à China, acusada de tomar empregos americanos.

Pior ainda: na que, na visão do ocupante da Casa Branca, os chineses poderiam estender suas mãos malignas sobre as “joias da coroa” do EUA — a tecnologia de ponta desenvolvida no Vale do Silício.

A China retaliou impondo sobretaxas sobre produtos americanos importados pelo mesmo valor de US$ 50 bilhões, incluindo carnes bovina e suína, frango, tabaco, automóveis, etc..

Para o Brasil e outros grandes exportadores de “commodities” pode haver um certo ganho a curto prazo, já que os chineses poderiam buscar suprimento desses produtos entre outros países e poderiam até mesmo eliminar as importações impostas ao frango brasileiro.

A mais longo prazo, porém, países de todos os quadrantes perderão com a retração do comércio mundial e, como preveem especialistas, as cotações de soja e outras commodities podem vir a enfrentar um ciclo de baixa.

A grande questão é saber até que ponto a guerra comercial pode chegar. Trump pode estar mexendo com fogo. Convém ressaltar que a China tem reservas de US$ 3,12 trilhões, sendo que US$ 1,18 trilhão destas foram investidos em títulos do Tesouro dos EUA, segundo dados de abril de 2018. A posição chinesa corresponde a 21% do total investido em “Treasuries” por países estrangeiros e a 7,2% da dívida pública total dos EUA.

O que acontecerá se a guerra comercial deslanchada por Trump virar uma guerra financeira?


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