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Trump e a “solidão estratégica” do comércio brasileiro

Leonardo Trevisan Decisões políticas envolvendo economia são realmente curiosas. No dia seguinte da vitória de Donald Trump, o Parlamento japonês votou e ratificou a adesão do país ao TPP, a […]

por Leonardo Trevisan
16/11/16

Leonardo Trevisan
Decisões políticas envolvendo economia são realmente curiosas. No dia seguinte da vitória de Donald Trump, o Parlamento japonês votou e ratificou a adesão do país ao TPP, a Parceria Transpacífico. Como se nada tivesse acontecido na véspera. Observar a confiança dos deputados japoneses pode ajudar a entender melhor o futuro das relações comerciais do mundo na era Trump. Até de países como o Brasil.

O exemplo do TPP talvez seja o mais significativo de que discurso e decisão são coisas bem diferentes em comércio exterior. Para começo de conversa, a Parceria Transpacífico , que abrange 12 países asiáticos sem a China, abre impressionante possibilidade para produtores americanos em um pedaço do mercado mundial que já compra 42% das exportações do agronegócio dos EUA.

Preservado o TPP, com tarifas tendendo a zero, a curto e médio prazo, exportações agrícolas americanas para a Ásia devem duplicar em cerca de cinco anos. Não será fácil convencer o produtor americano que o discurso de Trump de “sair do TPP” deve virar realidade. De novo: votar no conjunto ideológico das ideias de Trump é uma coisa; perder dinheiro com seu governo é outra bem diferente.

Aliás, o TPP era uma séria ameaça ao agronegócio brasileiro porque criava caminhos abertos e diretos para o produtor agrícola americano em toda a Ásia. O Congresso americano se incumbirá de conter essa proposta de campanha. Por essa razão, por exemplo, os deputados japoneses não alteraram a agenda de aprovar o TPP no day after da vitória de Trump.

É melhor ter cautela, portanto, nos prognósticos de forte ruptura nos grandes acordos comerciais, NAFTA inclusive. As grandes empresas americanas que fizeram enormes investimentos no México tem impressionante poder de lobby no Congresso. O mais provável é que além de impor algumas sobretaxas mais específicas sobre importações, o governo Trump aumente as aberturas de disputas contra parceiros na Organização Mundial do Comércio.

Neste ponto interesses brasileiros seriam mais atingidos. Não necessariamente os agrícolas. Até setembro, o fluxo de comércio entre Brasil e EUA alcançou US$ 39 bilhões, mas só 9% desse volume foi agronegócio. Como os dados da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) mostram, os EUA são o principal destino das exportações dos fabricantes brasileiros. Neste setor as vendas para o mercado americano cresceram 11% neste ano em relação a 2015.

Porém, o “namoro” de Trump com o “cinturão da ferrugem” pode atingir esse espaço conquistado, exatamente com abertura de “disputas”. Apenas bater às portas dos tribunais da OMC já seria suficiente para aquecer o “namoro” com trabalhadores dos setores industriais americanos. E prejudicar bastante os produtores brasileiros.

Em qualquer cenário, o maior fator de risco da era Trump para o Brasil está no setor financeiro, não nas ameaças de protecionismo comercial. Como bem mostra não só a volatilidade do câmbio. Aumentar o déficit, com disposição para gerar inflação como propõe Trump, provocará reação do FED, com maior ritmo de subida de juro. Só esta hipótese fará estragos consideráveis nas economias emergentes.

A percepção de que o Brasil vive certa “solidão estratégica” no mundo deve ficar ainda mais significativa na era Trump. E não apenas pelas oportunidades comerciais que podem diminuir.


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