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Toni Erdman retrata a ganância, a globalização e o choque de gerações

Claudia Bozzo Tem quem diga que “comédia alemã” é uma contradição em termos, o famoso oximoro. De qualquer forma, o requintado senso de humor que permeia o filme “Toni Erdman” […]

12/02/17

Claudia Bozzo
Tem quem diga que “comédia alemã” é uma contradição em termos, o famoso oximoro. De qualquer forma, o requintado senso de humor que permeia o filme “Toni Erdman” não lhe tira a natureza de drama, que atravessa situações como conflito de gerações, globalização, ganância empresarial, o papel da mulher no mundo corporativo e as relações familiares nesse contexto.

O filme concorre ao prêmio de melhor obra estrangeira tanto no Oscar quanto no Bafta (Reino Unido) e no César (França). Entrou no circuito paulistano esta semana e promete levar grande público aos cinemas, pois recebeu destaque no noticiário, via Hollywood. Foi anunciado, há dias, que o ator Jack Nicholson fará o papel principal, na versão americana.

Essa informação levou um crítico britânico lembrar que os EUA já “estragaram” outros filmes com suas versões, entre eles o belíssimo argentino “O Segredo dos Seus Olhos” (2009), de Juan José Campanella, vencedor do Oscar no ano de seu lançamento. Especular sobre tais mudanças seria um ‘spoiler’, mas pode-se adiantar que a versão americana terá pelo menos uma hora a menos (a alemã tem 162 minutos).

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“Toni Erdman”, dirigido por Maren Ade, levou cinco anos para ser feito, pois desde seu início, a diretora foi mãe duas vezes e também porque cuidou de cada detalhe, do roteiro à escolha do elenco, direção, montagem e finalização. Compensou: em 2016 foi saudado em Cannes com um longo e demorado aplauso na apresentação à imprensa e recebeu críticas favoráveis em todo mundo. O grande número de jornalistas europeus presentes à mais importante premiação do cinema registrou que a obra é uma grande referência à globalização e ao futuro da própria Europa, ao mostrar o trabalho de uma executiva alemã na Romênia.

A executiva, Ines Conradi, é interpretada por Sandra Hüller que faz um par sensacional com Winfred Conradi, no papel do pai, um professor que gosta de se fantasiar e criar “peças” para pessoas como o carteiro ou a própria mãe, entregue ao ator austríaco Peter Simonischek. A química entre os dois atores foi elogiada pela própria diretora Maren Ade, em várias conversas com jornalistas, nas quais ressaltou que o pai, Winfried, é um tipo universal: um desiludido porém indomável idealista dos anos 1960. Quis mostrar porque ele está tão desconcertado pelo fato de sua filha ter-se tornado tão poderosa e ao mesmo tempo tão afastada de coisas que lhe deem prazer. “Você é humana?” chega a perguntar o pai à filha. “Ele sente que passou seus valores e ela foi para o mundo, usando-os em um contexto completamente diferente. Por trabalhar em um ambiente globalizado, é com dificuldade que percebe o rumo de tudo, embora esteja orgulhoso com o fato de ela ser tão obstinada”, disse Maren Ade em uma entrevista.

E de fato, Ines é a própria geração Y, com dois pés na transição para a geração milênio e a diretora diz ter-se inspirado em pesquisas sobre comportamento no mundo corporativo. Interessou-se pelo papel dos consultores, ao constatar que há empresas que costumam contratar tais profissionais para suas escolhas mais difíceis, de forma que os chefes tenham a quem culpar por decisões impopulares. Na realidade, Maren Ade fez um filme sobre como a intrincada linguagem administrativa sistematicamente aliena as pessoas de seus instintos. “É sobre a globalização e o capitalismo e o que eles fazem conosco e com nossos relacionamentos,” afirma em entrevista.

O interessante é o filme passar-se no Leste Europeu, atualmente na mira de corporações de todo o mundo. Ines é especializada em petróleo e a ida inesperada do pai, um professor de artes, a Bucareste, para visitá-la, leva os dois tanto a uma viagem pelo interior do país como a um roteiro de reatamento da relação pai e filha.

É nítida a diferença entre a Romênia real e os ambientes por onde ela circula, dos hotéis de cinco estrelas, boates, sedes de empresas e restaurantes de luxo. Isso pode ser visto quando ela acompanha a saída do pai, do terraço de seu apartamento ultramoderno: o quintal da casa ao lado mostra uma mulher e crianças em extrema pobreza. Uma visão sutil, que marca o tom do filme. O mesmo que se vê quando ela vai a uma firma a ser incorporada pelo conglomerado onde trabalha e onde as demissões serão feitas pelo grupo que integra. Ingenuamente, operários e familiares enxergam na presença dos estrangeiros grandes oportunidades e abertura de empregos.

O que a executiva mira é sua própria carreira: ter sucesso na tarefa para subir mais um degrau rumo ao fim do teto de vidro. Uma verdadeira executiva alfa.

Muito reveladora é a canção que Ines e o pai executam, ele ao piano e ela cantando: “The Greatest Love of All”, clássico de Whitney Houston, que deveria ter sido traduzida, pois fala do “maior de todos os amores”: “ele é fácil de se conquistar, quando se aprende a amar a si mesmo”, em tradução livre. É um filme de situações inesperadas, inusitadas mesmo. Nada que se possa ou deva ser dito para não estragar a surpresa. O mais importante: uma história que fica na sua cabeça e vai sendo compreendida aos poucos. Não importa se a incerteza acompanhar seus passos ao terminar a sessão. Aos poucos ouvem-se as fichas caírem e tudo passa a fazer sentido. Muito sentido, nesse belíssimo, terno, crítico e inspirado filme.

O crítico do Le Monde resumiu: “Toni Erdman” propõe “que cada um de nós tenha a liberdade de se reinventar”. Como os norte-americanos conseguirão retomar o tema? Bem, melhor nem saber. E esquecer o que eles também tentaram reproduzir com Robert de Niro em “Estão Todos Bem” (2009) a partir do maravilhoso “Estamos Todos Bem” (1990) que Marcello Mastroianni imortalizou, sob a direção de Giuseppe Tornatore. Ou o belo filme japonês “Vem Dançar Comigo”(1996), do diretor Masayuki Suo que Richard Gere tão bem arruinou ao reproduzir em 2004 a história do executivo que decidiu tomar aulas de dança.


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