X

Todo talento de Maggie Smith na ‘quase’ verdadeira história de “A Senhora da Van”

Claudia Bozzo A severa, irresistível e sardônica condessa Violet Grantham, de “Downton Abbey”, quem diria, foi ocupar o papel de uma sem-teto em a “A Senhora da Van”, que entrou […]

10/04/16

Claudia Bozzo
A severa, irresistível e sardônica condessa Violet Grantham, de “Downton Abbey”, quem diria, foi ocupar o papel de uma sem-teto em a “A Senhora da Van”, que entrou em cartaz esta semana, e já fora visto na Mostra de Cinema de São Paulo do ano passado. Mas nada tira a majestade da dame Maggie Smith, sem a menor sombra de dúvida, uma das melhores atrizes que o mundo já viu e verá.

Como a aristocrata, na série, teve as melhores frases que um roteirista – inglês, claro – poderia elaborar, tendo-a em mente como intérprete: “Precisamos levá-la para o exterior. Nesses momentos pode-se em geral encontrar um italiano que não seja exigente demais”, diz a condessa, comentando a gravidez da neta. São frases totalmente inspiradas no gênio Oscar Wilde. Mas caem, como roupa feita sob medida, na personagem de Maggie Smith: “Se o que se procura é lógica, eu não a buscaria na elite inglesa”. Quem mais poderia despejar tais diálogos com a naturalidade de Maggie Smith? As frases, claro, sempre soam melhor em inglês e é só dar uma busca no Google, para encontrar as inesquecíveis “quotes” da Countess of Grantham.

Captura de Tela 2016-04-10 às 15.16.15

Já a irresistível, mal-humorada, rude e enigmática senhora da van escolhe uma rua de Camden, em Londres, para estacionar – empurrando com a ajuda de um desavisado – seu digamos “veículo”, onde mora. Ela interpreta Miss Shepherd, no filme dirigido por Nicholas Hytner, com roteiro adaptado pelo escritor Alan Bennett (papel de Alex Jennings), que publicou na London Review of Books as memórias reais – e um pouco romantizadas – sobre a extravagante homeless que morou durante 15 anos no seu estacionamento, em um utilitário. A história rendeu ainda uma peça de teatro.

Ao enfrentar a desconfortável realidade da convivência com uma pessoa tão diferente do grupo, a vizinhança, liberal e culta, tem de estabelecer um delicado equilíbrio entre suas opiniões progressistas em questões políticas e sociais, no que acaba resultando numa história de benevolência e solidariedade. Zelosa de sua privacidade, a senhora da van rejeita caridade – “não uso verde” diz à moça que vai doar roupas para o frio. Como fera, protege a privacidade, história e preferências.

É também um conto de liberdade e escolha. O filme se concentra nesses 15 anos de convivência forçada com a desconhecida que mora no estacionamento do escritor, e como tudo na vida, não dá grandes explicações sobre personagens. Apenas rápidos insights sobre a formação de Mary Sheperd, um pouquinho sobre suas experiências aqui, outra migalha ali. Ao mesmo tempo, focaliza o trabalho de criação do escritor, na montagem de seus personagens e ricos diálogos internos, mostrando o processo de elaboração do escritor Bennett, muito bem interpretado por Alex Jennings.

O próprio Bennett faz uma “ponta”, ao passar de bicicleta pela rua de Camden, bem no final do filme. Ele deu entrevistas dizendo que a história é parcialmente verdadeira, mas sem grandes elaborações, deixando ao espectador a escolha do que será aceito ou não. Mas o que não falta é sensibilidade à história, de uma humanidade irresistível.


Todos os direitos reservados, 2019.