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“The Square”, um diálogo entre o momento e o desconforto

Claudia Bozzo Tom Wolfe e seu sarcástico e irresistível livro “A Palavra Pintada” é a primeira referência que vem à mente no início de “The Square – A Arte da […]

14/01/18

Claudia Bozzo
Tom Wolfe e seu sarcástico e irresistível livro “A Palavra Pintada” é a primeira referência que vem à mente no início de “The Square – A Arte da Discórdia”, uma coprodução entre Suécia, Alemanha, Dinamarca e França. Mas não é a única referência. Outras virão, com o desconforto que o filme vai provocando aos poucos, mesmo algumas resenhas o descrevam como “comédia dramática”, pois o senso de humor entra em pinceladas sutis.

Premiado com duas Palmas de Ouro em Cannes em 2017, para melhor filme e diretor, é obra de Ruben Östlund, o mesmo de “Força Maior” (2014), que retrata um pai de família que, ao tomar o café da manhã com mulher e filhos em uma estação de esqui, percebe o desencadear de uma avalanche e cuida da própria pele sem preocupar-se com qualquer um de seus familiares.

Já “The Square” está em outro ambiente. Ac0mpanha as atribulações do curador de uma importante galeria de arte de Estocolmo (com Claes Bang no papel), cujas tarefas incluem bajular muitos para obter verbas e dotações para manter as exposições. Ele quer criar polêmica, quer atrair o público e em resumo quer agradar a todos, mas parece conquistar poucos sucessos, tanto no campo social como profissional.

A referência a Tom Wolfe vem logo de início, quando o curador é entrevistado por uma jornalista americana, Anne (Elizabeth Moss, conhecida pelo seu papel em “Mad Men”) que repete uma frase do catálogo de apresentação da nova mostra, “The Square”, texto com frases pomposas e vazias. Ela cita uma das frases e pergunta ao curador, Christian, se ele poderia explicar a ela o que aquilo quer dizer. Ele se enrola e tenta sair pela tangente. A tal exposição consiste de uma instalação, concebida por uma artista argentina, que a define como uma ‘utopia em miniatura”, uma espécie de espaço de refúgio e calma.

Até um sociólogo é chamado para explicar a obra à alta burguesia que frequenta os jantares do museu e abre suas carteiras, caindo no que Wolfe define como a palavra pintada que ajuda a entender essa forma de expressão que é parte da arte moderna. Irreverente e sarcástico, Wolfe, em 1974, concluiu, como explicou em inúmeras entrevistas, ao ler a edição dominical do The New York Times, que a arte moderna havia se tornado inteiramente literária: as pinturas e outras obras só existiam para ilustrar o texto.

Mas são duas horas e meia de filme, e a trama percorre o que há de mais inquietante nesse momento na Europa, mostrando-se uma verdadeira sátira surrealista. Ao andar distraidamente por uma rua de Estocolmo, o curador Claes vê-se envolvido em situação bizarra: uma mulher passa gritando e esconde-se atrás de outras pessoas. O clima de pânico se desfaz em instantes e ao chegar à galeria, ele percebe que está sem o celular, a carteira e as abotoaduras.

É a busca por esses objetos que traz a Europa de hoje à tela: a intranquilidade com a questão da imigração, tema que paralisa políticos em vários países. Pelo localizador de seu celular, descobre com a ajuda de um funcionário da galeria, que ele está em uma das regiões da periferia de Estocolmo (na verdade, é até difícil descobrir que tal local é periferia, mostrando que o fosso que separa as classes nos países nórdicos é bem raso, em relação a outros). Então resolve ir até lá com seu carro elétrico e colocar uma carta sob a porta de cada um dos apartamentos do prédio onde estaria seu telefone, dizendo ter sido roubado e ameaçando denunciar o caso à polícia.

O conflito se forma e é mais uma das confusões que deixam o curador à beira de um ataque de nervos, além de ter de cuidar das filhas, enfrentar um relacionamento com a jornalista que o entrevista no início e lidar com as repercussões da campanha criada por dois publicitários, cuja meta é “viralizar” na internet.

Desconfortável, surreal e denso, o filme percorre o terreno minado das relações e ressentimentos sociais, das estruturas do poder e prepotências em geral. O jantar, formal e requintado tem a participação de Oleg um “artista performático” que leva esse desconforto a um ponto quase insuportável, não fosse a necessidade de sempre manter as aparências. 

O desconforto está também nas interrupções feitas durante a palestra de um dos artistas com obra expostas no museu, interpretado pelo britânico Dominic West, ou ainda na criança que é levada pelo pai às reuniões de escritório, e não para de chorar. Ou no garoto que se sente com direito a um pedido de desculpas por ter sido punido pelos pais em função da carta deixada sob a porta de seu apartamento. Duro como a realidade, é um filme daqueles que ficam dando voltas na sua cabeça e a cada pouco mais uma porta se abre em sua mente.


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