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“The post”, uma celebração da liberdade e decência

Claudia Bozzo Em entrevista recente, Tom Hanks definiu o filme de Steven Spielberg, “The Post – A guerra secreta” como “a história da semana em que Katharine Graham tornou-se Katharine […]

28/01/18

Claudia Bozzo
Em entrevista recente, Tom Hanks definiu o filme de Steven Spielberg, “The Post – A guerra secreta” como “a história da semana em que Katharine Graham tornou-se Katharine Graham”. Mais uma das razões que tornam o filme bastante atual e interessante, pois trata da atuação de vários presidentes que mentiram descaradamente ao povo americano sobre a condução da Guerra do Vietnã, contando com um roteiro bem amarrado e uma narrativa esclarecedora. A história traz temas atuais, pois os EUA de agora enfrentam um mandatário que acusa a imprensa de mentir (o ataque é a melhor defesa?) e uma espécie de ‘nova’ revolução feminista, quando um novo senso ético se impõe, com o movimento #MeToo, de denúncia dos casos de assédio sexual, contra mulheres e contra homens.

De qualquer forma, a bravura do The Washington Post, assim como do The New York Times – que na verdade foi responsável pelo furo – naqueles longínquos anos setenta (no século passado!) – é a saga de época em que ficou mais evidente o compromisso da imprensa com a ética, a denúncia de violações e o serviço público. No caso, a opção de Steven Spielberg, claramente, foi de fazer um filme didático, onde não faltam informações sobre o tema central da trama, o vazamento dos Papéis do Pentágono. Esses documentos faziam parte de um estudo encomendado pelo então secretário da Defesa, Robert McNamara, a uma empresa chamada Rand Corporation, sobre as possibilidades de vitória no conflito do Sudeste Asiático. O presidente na época era Richard Nixon.

Os documentos vieram a público graças ao esforço de um pacifista e ativista que trabalhou na Rand Corporation como analista militar, Daniel Ellsberg, que como John Snowden (no século XXI), sacrificou sua vida pessoal em nome de ideais. Nos EUA, tais pessoas são chamadas de “whistleblower” sem qualquer conotação negativa – alguém que “assopra o apito”, e expõe a público delitos ou infrações cometidas por uma organização com a finalidade de dar um fim a isso. Ele chegou a ser considerado “O Homem Mais Perigoso da América”, título do filme de 2009 que conta sua história. É interpretado pelo ator britânico Matthew Rhys.

Sempre competente, Meryl Streep faz o papel da dedicada e sábia dona do jornal, Khatarine Graham, empresa que era de sua família e estava sob o comando do marido Philip Graham. Depois de uma crise de depressão, ele se suicidou, e ela, que jamais trabalhara fora, viu-se à frente do jornal. Na época desses acontecimentos, a empresa estava abrindo o capital, mas sem abrir mão do controle editorial e Katharine mostra sua intenção de investir o dinheiro captado na Bolsa com a contratação de pelo menos 25 novos jornalistas. Ela tinha como homem de confiança um dos grandes editores que o país teve, Benjamin Bradlee, já interpretado com elevada competência por Jason Robards (Em “Todos os Homens do Presidente”, de 1976), mas agora nas mãos de um inócuo Tom Hanks e sua estranhíssima peruca, que deve dar inveja até ao Kim Jong-un.

 

Além de ser ‘a semana que revela Khatarine Graham’, os acontecimentos elevam o The Washington Post ao nível dos jornais de primeira linha do país, nos eventos que serviram para consolidar a importância da liberdade de imprensa no país. A posição é consolidada apenas um ano depois, graças à atuação corajosa do mesmo jornal no caso Watergate, com o mesmo Bradlee à frente da redação.

O fato de ser um filme didático não o desmerece, porque tais fatos, do século passado, estão presentes provavelmente apenas na cabeça de jornalistas de uma certa faixa etária. É importante que as novas gerações saibam o que pode ser a função de um jornal, como em “Spotlight: Segredos Revelados” de 2015, vencedor do Oscar de melhor filme, que traz o relato sobre a denúncia que o Boston Globe fez, de casos de pedofilia em meio ao clero local. Por coincidência, um dos chefes daquele jornal era o filho de Bradlee, Ben Bradlee Jr. Outros filmes ressaltam o mesmo tema, como “Snowden: Herói ou Traidor”, de 2016, dirigido por Oliver Stone. Há também a história do “whistleblower” do Watergate, “Mark Felt – O Homem que Derrubou a Casa Branca”, de 2017, que deixa muitas interrogações para quem não estava familiarizado com os acontecimentos e não sabia nem quem era o famoso “Deep Throat”. “O Quinto Poder” de 2013, tem Benedict Cumberbatch no papel de Julian Assange, o criador do Wikileaks.

A rivalidade entre os jornais, o poderoso NYT e o bravo Washington Post torna-se uma aliança em defesa da liberdade de imprensa quando ambos são processados – e absolvidos na Corte Suprema – por traição e conspiração contra o governo Nixon. Como alertou McNamara a Katharine Graham, pois eram amigos, “cuidado com Nixon. Ele é mau e fará tudo que puder para acabar com seu jornal”. Também Daniel Ellsberg foi processado e condenado a 115 anos de prisão, por espionagem e traição, mas teve a pena revogada por falhas no processo.

É uma viagem no tempo, de volta às redações esfumaçadas, aos telefones de discagem, ou telefones públicos, ao grande avanço tecnológico que era máquina de Xerox, aos tempos dos tipos de chumbo e rotativas gigantescas, em geral no subsolo dos jornais e de jornalistas com terno e gravata.

E quem se saiu mal, no final das contas, foram Richard Nixon e seus cúmplices. Uma lição a ser aprendida.


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