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Talento sueco nos cinemas: “Um Homem chamado Ove” e “Quatro Vidas de um Cachorro”

Claudia Bozzo Há dois bons filmes de diretores suecos nos cinemas paulistanos, “Um Homem Chamado Ove” e “Quatro Vidas de um Cachorro”, ambos emocionando muita gente e comprovando que qualidade […]

18/02/17

Claudia Bozzo
Há dois bons filmes de diretores suecos nos cinemas paulistanos, “Um Homem Chamado Ove” e “Quatro Vidas de um Cachorro”, ambos emocionando muita gente e comprovando que qualidade é fundamental para a boa diversão. Na sessão em que vi o segundo, por exemplo, havia uma fila de mulheres no toilette, em busca de papel para secar as lágrimas. Não que o filme do diretor Lasse Hallström, famoso por ter feito “Chocolate” e “Minha Vida de Cachorro”, entre outros muito conhecidos, seja triste. É uma comovente história, muito bem contada, sobre um cão que reencarna várias vidas, sempre em busca de seu primeiro dono.

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O mesmo acontece com a outra obra que vem dos países nórdicos – por sorte, com frequência bem maior atualmente, tanto nos cinemas como nos canais de TV a cabo – “Um Homem Chamado Ove”, que retrata um homem de 59 anos, ranzinza até o último fio de cabelo, como muitos que todos conhecemos, tanto na vida real como no cinema, que perde o emprego onde esteve por 43 anos, ocupando a vaga que era do pai e toma decisões para o que lhe resta de vida sem a amada esposa Sonja (Ida Engvoll). Não há um estraga-prazer se dissermos que ele tenta o suicídio de várias formas, sempre sendo interrompido pelos problemas de algum vizinho, pois o próprio trailer mostra isso. O filme concorre a dois Oscar, o de melhor filme estrangeiro – categoria onde se encaixam os poucos filmes da premiação que realmente valem a pena – e de melhor maquiagem.

O roteiro, baseado em livro de grande sucesso no país, conta em flashbacks a história de Ove, intransigente defensor das normas e regras que regem o condomínio onde mora e onde “é obrigado” a conviver com pessoas e animais que despreza, como o pobre chihuahua que chama de bola de pelo e um belo gato persa, sempre por perto. Ou as pessoas que são seus vizinhos. Ninguém escapa de uma frase maldosa, de uma advertência ou cobrança.

É possível gostar de Ove pela sua primeira fala no filme: à mulher que tenta ser atendida antes dele, no supermercado, avisa: “a fila começa atrás de mim!”. Foi comprar flores, que leva ao túmulo da mulher, com a qual conversa e conta coisas de seu dia a dia, prometendo ir encontrá-la em breve. O personagem é interpretado por Rolf Lassgård, experiente ator de formação clássica, que atua tanto no teatro como em cinema e televisão. Foi, de 2002 a 2008, o policial Kurt Wallander, que o Netflix exibe com Kenneth Branagh, no mesmo papel, na televisão sueca.

Suas idiossincrasias são muito engraçadas: adora os carros da Saab, por influência do pai e chega a romper relações com um vizinho, depois de muito brigar com ele, pois prefere os automóveis da Volvo. Mas quando este compra um Mercedes, a ruptura é inevitável! Também quer ignorar os novos vizinhos, mas acaba sendo conquistado pela iraniana Parvaneh (Bahar Pars), com dois filhos e grávida de um terceiro, e por seu arroz com especiarias.

É um filme despretensioso, mas com a sensível presença do diretor Hannes Holm, autor também do roteiro, que mostra seu domínio da câmera, com longas tomadas circulares que parecem envolver os principais personagens em situações decisivas, técnica que evita o apelo ao sentimentalismo.


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