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T2 Trainspotting não é mais o mesmo. Mas, atores e diretor continuam ótimos

Claudia Bozzo Vinte anos é muito tempo. Mas existem pessoas que conseguem congelar os dias, ruminando ódio, o desejo de vingança e cultuando um passado nada memorável. É o que […]

26/03/17

Claudia Bozzo
Vinte anos é muito tempo. Mas existem pessoas que conseguem congelar os dias, ruminando ódio, o desejo de vingança e cultuando um passado nada memorável. É o que acontece com os quatro escoceses de Edimburgo em “T2 Trainspotting”, sequência do grande sucesso cinematográfico de 1996, “Trainspotting” um dos mais rentáveis do Reino Unido.

O primeiro filme, revolucionário, lançou para a fama o diretor Danny Boyle, e atores como Ewan McGregor (Renton), Jonny Lee Miller (Simon, ou Sick Boy), Robert Carlyle (Begbie) e Ewen Bremner (Spud). Todos, sem exceção, com carreiras muito bem sucedidas. Sem qualquer identidade com os personagens do primeiro e do segundo “Trainspotting”.

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Renton-McGregor, que traiu os amigos (menos Spud-Bremner, a quem deixou quatro mil libras), após roubar o resultado de uma venda de heroína, resolve voltar a Edimburgo, não se sabe bem se para acertar contas com o passado ou com o presente, e procura os antigos companheiros. A história mescla nostalgia com humor negro, colocando os antigos adolescentes como quarentões desiludidos e fracassados.

Mas faz falta um dos grandes atrativos da primeira versão: a trilha sonora: Iggy Pop, Primal Scream, Leftfield. Mesmo porque os anos passaram e a Escócia, como outros países europeus, está menos focada em sexo, drogas e rock n’ roll e mais em ares desenvolvimentistas. Tem até mesmo programas para startups, ao qual Sick Boy-Miller adere, querendo montar um negócio com a namorada, Veronika (Anjela Nedyalkova).

Na verdade, a intenção dele é criar uma sauna – ou prostíbulo – e prosseguir com seus negócios de chantagem. Finalmente, há o violento e descontrolado Begbie-Carlyle, que revive no dia a dia a traição do companheiro e dá um jeito de fugir da cadeia, sem saber que este retornara de seu “exílio” na Holanda.

Quem está cada vez melhor é o premiado diretor Danny Boyle, que sofistica ao extremo as tomadas, com congelamentos sutis de cena e uma notável filmagem do diálogo de Renton-McGregor, com o pai, no qual a sombra de um dos personagens ocupa magicamente na parede a silhueta que seria da mãe, falecida. Boyle, ganhador do Oscar com “Quem Quer Ser um Milionário” e antes disso, famoso por dirigir “A Praia” (2001) , “Cova Rasa” (1994) e “Por uma Vida Menos Ordinária” (1997) fez um filme possível, mesmo porque retomar o pique dos adolescentes perdidos do primeiro filme não parece viável, nem desejável. Os vinte anos, a traição e as drogas pesam.

Renton-McGregor lembra a Spud que deixou com ele quatro mil libras, sua parte no “negócio”. E a resposta dele é até irada: “o que você acha que um viciado ia fazer com aquele dinheiro?”. Ao entregar ao mais próximo dos amigos, Sick Boy-Miller, as quatro mil libras que roubou dele, ouve outra resposta irada: “E o que eu deveria fazer com isso, comprar uma máquina do tempo?”.

Para o hoje mega astro Ewan McGregor, que vive em Los Angeles, foi uma emoção a mais retornar à Escócia para a filmagem de “T2”. Em uma entrevista, ele contou que se sentiu como Renton, retornando. “Senti coisas como, ‘droga, não moro na Escócia desde os 17 anos!’ Mudei para Londres onde estudei dramaturgia e embora viajasse para lá todos dos anos, para ver meus pais, meu irmão e sua família, não morava mais lá. … de todos personagens que interpretei, Renton é o mais escocês de todos. E de repente me veio o pensamento. Será que eu consigo, será que ainda sou suficientemente escocês”?

Dos quatro, o único que não é escocês é Jonnie Lee-Miller, nascido na Inglaterra. Atualmente interpreta um moderno Sherlock Holmes na série “Elementary”, e no teatro, uniu-se recentemente a Benedict Cumberbatch, o Sherlock da TV britânica, em uma peça de teatro. Mantém seu charme mesmo como dono de um fracassado pub e continua interessado em drogas, mulheres e dinheiro para manter seus prazeres. A longa amizade entre ele e Renton, que vem da infância, é lembrada em fotos e muitas cenas remetem aos personagens no filme anterior.

Essa nova reunião de personagens difíceis traz um necessário amargor e pessimismo ao filme, embalado no violento desespero do primeiro “Trainspotting”. O personagem de McGregor mantém seus mantras e ao amigo Spud, aconselha: “você é um viciado mantenha-se assim. Só mude o tipo de vício”. Também repete seus mantras, trazendo-os para o presente: “Escolha a vida. Escolha o Facebook, o Twitter, o Instagram e torça para que alguém, em alguma parte se importe. Escolha sua história”. O filme foi adaptado por John Hodge do livro Porno, de Irvine Welsh, que recria o reencontro dez anos depois.


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