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“Se você não estiver revoltado, que tipo de pessoa você é”? indaga o diretor Ken Loach, de “Eu, Daniel Blake”

Claudia Bozzo “Eu, Daniel Blake” é mais um dos filmes do talentoso diretor britânico Ken Loach que entra na categoria “soco no estômago”, como “Rota Irlandesa” (2010, em exibição no […]

08/01/17

Claudia Bozzo
“Eu, Daniel Blake” é mais um dos filmes do talentoso diretor britânico Ken Loach que entra na categoria “soco no estômago”, como “Rota Irlandesa” (2010, em exibição no Netflix) ou “Ventos da Liberdade” (2006) e “Pão e Rosas” (2000). Foi premiado com a Palma de Ouro em Cannes e aqui em São Paulo, aplaudido em uma sessão de quinta-feira à tarde do Cine Belas Artes. Não dá mesmo para deixar de saudar com palmas, de ouro ou não, tanto talento. Ainda mais por um filme tão próximo dos seres humanos reais, como esse.

Trata-se da história de um carpinteiro de 59 anos, afastado do trabalho por problemas de saúde e às voltas com o kafkiano sistema previdenciário britânico. Chega no momento em que o tema reforma da previdência aqui no País é assunto em qualquer ônibus, trem, ou fila na qual se esteja, sempre gerando um muro de lamentações.

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Embora Loach não seja apenas um ‘pugilista’ cinematográfico, e alterne filmes sobre duras realidades com obras de poesia e ternura ímpares, como “A Parte dos Anjos” (2012), “À Procura de Eric” (2009) ou “Meu Nome é Joe” (1998), sua câmera está sempre voltada para os mais frágeis, menos favorecidos e ele sempre o faz com grande talento, em companhia do roteirista Paul Laverty, uma parceria de mais de 20 anos.

Loach está com 80 anos e no momento, empenhado em divulgar seu documentário (“In Conversation With Jeremy Corbyn”) sobre o deputado que, desde 2015, é líder do Partido Trabalhista, um político cujas aspirações estão próximas das do senador norte-americano Bernie Sanders, que até poderia ter sido eleito presidente dos Estados Unidos, se a democrata Hillary Clinton não o atrapalhasse. Corbyn também está a milhas de distância de outro trabalhista de triste memória, Tony Blair. Em entrevista ao El País, publicada no site brasileiro do jornal, Loach afirmou que tem esperanças: “sim, sou otimista. Sanders, Podemos, Syriza… Existe uma sensação de que outro mundo é possível. A ascensão de Corbyn traz muita esperança, mas é sistematicamente atacada por toda a imprensa, pela BBC, e até pelos jornais de esquerda. É uma grande batalha, mas é muito popular entre as bases”.

Em depoimento ao jornal britânico The Guardian, Ken Loach declarou, dias antes de o filme ser lançado na Grã Bretanha (em outubro de 2016): “Se você não estiver revoltado, que tipo de pessoa você é”? Ele é descrito como um espinho cravado na carne do establishment, desde que filmou “Cathy Come Home”(1966) e “Kes” (1969).

E agora, aos 80, faz o mais indignado de seu filmes. “Eu, Daniel Blake” é sobre um homem que dá murros em ponta de faca ao enfrentar os meandros surrealistas do sistema de benefícios do Reino Unido. Habilidoso em sua profissão, e até mesmo com dons artísticos para criar móveis e esculturas em madeira, vê-se obrigado a aprender como preencher irritantes e inúteis formulários pela internet. Ele, que mal sabe como lidar com um mouse. A história está ficando parecida com a realidade? Pois não tira o pé do chão em momento algum.

O carpinteiro resolve ajudar uma jovem mãe solteira, também envolvida no emaranhado de “nãos” e “impossível” do sistema oficial Esse personagem surgiu das pesquisas feitas por Loach e Laverty sobre o tema. Ambos relatam ter conversado com um jovem que nada tinha em sua geladeira e não comia há três dias: com uma mulher envergonhada por ter de recorrer aos bancos de alimentos; um homem chamado para uma fila às 5h30 da manhã, mas dispensado uma hora depois porque não havia necessidade de sua presença. O diretor se rebela: “Essa humilhação constante, pela sobrevivência. Se você não fica indignado, que tipo de pessoa é você”?

Daniel Blake, interpretado por Dave Johns, ator pouco conhecido por aqui, pois a maior parte de seu trabalho está em teatros, onde faz apresentações do tipo stand up comedy, ganhou o Bafta de 2016, como melhor ator, e dá grande consistência ao personagem, uma pessoa divertida, que se relaciona com os vizinhos e colegas de trabalho e cria laços com Katie, mãe solteira de uma garota e de um menino, interpretada por Hayley Squires. Ambos entram em tal sintonia que é difícil refrear as lágrimas, em muitas passagens mais dramáticas.

Sem violinos ao fundo, Loach emociona o espectador. Ainda mais por sua lucidez e coerência. Como disse ao El País: “o cinema norte-americano cultua a riqueza. Os personagens têm dinheiro e casas bonitas. E nunca se explica de onde vem esse dinheiro. Há uma agenda de direita nesse cinema”. Segundo Loach, o Estado, que deveria apoiar pessoal como Daniel e Katie, leva à ilusão de que, “se uma pessoa é pobre, a culpa é dela”.

Essa é uma obra que remete a outra, francesa: “O Valor de um Homem”, de 2015, que em francês tem um título bem mais interessante: “La Loi du Marché”, dirigida por Stephane Brizè com atuação impecável e premiada, também em Cannes, de Vincent Lindon. O filme, apresentado em 2015 no mais importante dos festivais de cinema, recebeu longos e demorados aplausos.

Nele, Lindon, também é um desempregado, bem mais jovem, e segue por caminhos semelhantes, preenchendo os inúteis formulários, participando de seminários sobre currículos e submetendo-se a seguidas humilhações. Até conseguir um emprego de segurança num supermercado. Uma lei implacável que rege o mercado: trabalhadores cada vez mais mal pagos em empregos cada vez menos qualificados. Como se a culpa pela má qualificação fosse do trabalhador.


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