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São Paulo nas telas, em três filmes

Claudia Bozzo Três filmes paulistas encontraram pequenos espaços para infiltrar-se em meio à enxurrada de filmes de ação. E como é bom ver “a vizinhança” na tela! Tanto “De Onde […]

29/05/16

Claudia Bozzo
Três filmes paulistas encontraram pequenos espaços para infiltrar-se em meio à enxurrada de filmes de ação. E como é bom ver “a vizinhança” na tela! Tanto “De Onde Eu te Vejo”, dirigido por Luiz Villaça, quanto “Uma Noite em Sampa”, de Ugo Giorgetti ou “São Paulo em Hi Fi”, documentário de Luis Steffen, nos levam ao redor da nossa cidade. Não tão fotogênica quanto o Rio de Janeiro, mas fascinante pela sua dinâmica.

Captura de Tela 2016-05-29 às 16.48.13

Essa cidade que se transforma, vive, sobrevive e respira, está muito bem retratada em “De Onde Eu te Vejo”, filme que estava em cartaz até a semana passada, e trata da nova fase na vida do casal Ana (Denise Fraga) e Domingos Montagner). Eles decidem separar-se depois de 20 anos de vida em comum. Mas a separação não é assim, digamos, tão radical: por uma questão prática, pois eles possuíam dois apartamentos em Higienópolis – a janela de um em frente à janela do outro – permite que o diálogo se mantenha.

A filha de ambos, Manu (Manuela Aliperti) está saindo de casa para fazer faculdade no interior e entra aí mais um elemento, o “ninho vazio”. Além dos interessantes personagens, é a cidade que está no foco do roteiro. Ana atua como intermediária na compra de imóveis que serão derrubados para a construção de espigões e sua tarefa (com o coração apertado) é convencer os relutantes proprietários a abandonar seus ninhos. Quem ama a cidade e se regala com seus patrimônios arquitetônicos estará em casa nesse filme.

O roteiro, muito interessante, dá densidade aos personagens e a história de cada um – e dos dois – vai aparecendo aos poucos. Assim como as mudanças no habitat urbano. É significativo o interesse de Fábio pelo fechamento do Cine Marabá, na Avenida Ipiranga, como a descoberta de que o restaurante onde ambos ficaram noivos virou um estacionamento. Eles moram em Higienópolis, e percebemos que é bem perto da praça Vilaboin.

“Cada apartamento dessa cidade conta mais de uma história”, narra a personagem Ana, vivida por Denise Fraga, tão à vontade no papel quanto o parceiro Fábio, vivido por Domingos Montagner, em excelentes interpretações. É um filme que se encaixa na categoria de “uma boa história, com ótimos atores, bela direção”. E um cenário que nos encanta: nossa cidade.

São Paulo retorna com uma face mais sombria em “Uma Noite em Sampa” de Ugo Giorgetti, paulistano, fiel cronista de sua cidade, que responde por um dos mais interessantes filmes sobre futebol e torcedores já feitos no País, “Boleiros”, de 1998. A cidade sempre esteve no centro de seus filmes, como “A Festa” de 1989, “Sábado” de 1995, ou mesmo “Boleiros 2” de 2006.

Em “Uma Noite em Sampa”, Giorgetti, um cronista da cidade, faz um retrato bastante sarcástico dos medos e preocupações que rondam a metrópole. Um grupo de conhecidos vem do interior – alguém menciona Vinhedo – para ver uma peça no Teatro Ruth Escobar, e depois jantar. Mas a peça acaba e o motorista do ônibus não aparece. Ninguém sabe o que aconteceu, e o local está deserto, afinal é quase meia-noite. Todo o grupo sente-se inseguro, pois foi obrigado a deixar os celulares no ônibus e muitos deles – como fazem questão de explicar – moravam em São Paulo e daqui saíram “em busca de qualidade de vida”.

A guia do grupo explica que os celulares ficaram lá, pois é muito desagradável entrar com eles em um teatro. (Saudável cuidado). O filme tem algo de “O Anjo Exterminador” de Luis Buñuel, que chega a ser mencionado por um dos personagens, pois o medo e a insegurança deixam o grupo paralisado e sem capacidade de tomar decisões. A proposta do filme certamente é expor a paranoia urbana e seus personagens. Além disso, o diretor recorre a manequins, em vez de atores, para expor pessoas mais alienadas que o normal, em um contexto de classe média que se crê culta e bem informada. O marido obediente, a esposa “traumatizada”- sabe-se lá com o que – marcam apenas a presença.

É estranho ver a imobilidade e os temores de um grupo que está a umas poucas quadras da Avenida Paulista, e o medo difuso e indefinido que ronda o grupo, entremeado por histórias tétricas e caricatas, por personagens inverossímeis e ao mesmo tempo, tão reais. Um retrato quase cruel. Ao filme, porém, pode-se dizer que faltou um pouco de fel. Aquele grupo certamente teria ido bem mais longe.

O terceiro filme, “São Paulo em Hi-Fi”, segundo a sinopse, volta-se para a vida noturna gay de São Paulo dos anos 1960 a 1980, com depoimentos de participantes. Está no CineSesc e vale a pena conferir.


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