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“Santiago, Itália”, volta ao passado para mostrar a atualidade da intolerância

Claudia Bozzo  Apenas três cinemas estão exibindo em São Paulo o novo filme de Nanni Moretti, “Santiago, Chile” (que foi premiado em seu país com o Donatello, o Oscar italiano, […]

01/07/19

Claudia Bozzo 

Apenas três cinemas estão exibindo em São Paulo o novo filme de Nanni Moretti, “Santiago, Chile” (que foi premiado em seu país com o Donatello, o Oscar italiano, por melhor documentário de 2019). São o Belas Artes, o Cinesesc e o cinema do Instituto Moreira Salles. E é bom ir logo para vê-lo, pois não é bem o tipo de filme que a TV a cabo exibe.

A apresentação do documentário de Nanni Moretti, um dos mais importantes cineastas italianos, e que se alinha a uma vertente que abriga o britânico Ken Loach, chega ao Brasil na mesma época em que os “novos protagonistas” que embalam a política italiana mostram as garras em um incidente que foi notícia em todo o mundo este final de semana. A capitã alemã, Carole Rackete, foi presa em Lampedusa, para onde conduziu o navio Sea Watch 3, transportando 43 imigrantes, depois de 17 dias no mar. Ela conseguiu atracar alegando “estado de necessidade”, rejeitado pelas autoridades italianas, que que a prenderam acusando-a de “resistência ou violência contra uma nave de guerra”, ato que implica em três a dez anos de prisão. Seu destino é ainda incerto.

É exatamente a solidariedade, o respeito ao ser humano que enfrenta tantas dificuldades em alguns países europeus e nos EUA, o tema desse filme de Moretti, o mesmo diretor dos politizados “Caro Diário” (1993), “Aprile” (1998) e “Crocodilo” (2006). Com filmes da época e depoimentos de importantes personagens da história chilena, Moretti faz uma retrospectiva do golpe que derrubou Salvador Allende no outro fatídico 11 de setembro, em 1973, dia em que o Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, foi bombardeado … pela Força Aérea chilena e o presidente eleito foi substituído por uma junta militar sob o comando de Augusto Pinochet.

O cineasta ouve chilenos que se refugiaram na Itália e acabaram tornando-se italianos, depois de viverem e terem filhos no país onde foram acolhidos com muito calor humano. Ouve intelectuais, cineastas, chilenos que eram da oposição e sobreviventes das torturas de um dos mais ferozes governos que o mundo conheceu. Ficamos sabendo como a embaixada italiana em Santiago transformou-se em porto seguro para refugiados – muitos foram os brasileiros que por lá passaram – e entre os que se refugiaram na Itália, nos vem à mente Chico Buarque de Holanda, mas sabe-se que muitos dos que depois foram para outros países passaram por esse “portal da liberdade” em direção à vida.

O documentário fala daqueles difíceis dias pelos quais passou nosso vizinho e o cineasta Moretti só é ouvido em “off”, fazendo perguntas aos entrevistados. Ele aparece em apenas um momento, durante o depoimento de um militar preso por homicídio e sequestro nos tempos da ditadura de Pinochet, que tanto defende o golpe como tenta passar-se por vítima, depois de “salvar o país da ameaça socialista”. E diz que só havia concordado em conversar com o irreverente italiano porque disseram a ele que se trata de uma pessoa séria e imparcial. Moretti vem para a frente da câmera e protesta: imparcial, não, “eu nunca disse que sou imparcial”.

Não é mesmo: em “Aprile”, há uma cena inesquecível, na qual ele acompanha, junto da mãe, um debate na TV italiana entre o “crocodilo” Berlusconi e o representante do PC italiano, Massimo d’Alema e diz, bem irritado: “Vamos D’Alema, responda, diga algo de cívico, de esquerda!”)

E mesmo que o filme traga de volta as dores de um golpe sangrento e cruel, com cenas filmadas na época, no estádio Chile e em manifestações, é um filme sobre a Itália, sem dúvida. A prisão da jovem alemã em Lampedusa só comprova esse fato e de forma lamentável, traz maior reforço à importância e oportunidade desse documentário.


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