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“Sal da Terra” é para ser visto na telona

Claudia Bozzo A grande moda do momento é a “intolerância”. Seja por glúten, laticínios, carne, e o que mais chamar atenção e dinheiro. Então, para quem segue a onda e […]

26/04/15

Claudia Bozzo
A grande moda do momento é a “intolerância”. Seja por glúten, laticínios, carne, e o que mais chamar atenção e dinheiro. Então, para quem segue a onda e tiver intolerância por bom gosto, sensibilidade, amor ao ser humano e competência, é bom passar longe de cinemas que exibam “O Sal da Terra”, o filme sobre um gênio, o fotógrafo Sebastião Salgado, retratado por outro, o cineasta Win Wenders.
É um filme que exige um cuidado em particular: deve ser visto no cinema, pois essa é a linguagem de Wenders. E é na tela grande que melhor pode ser acompanhada essa grande aventura em busca da humanidade que tem sido a vida de Salgado.
Com o filho de Sebastião, Juliano Salgado como parceiro na direção, podemos acompanhar as cinco fases que marcam a trajetória desse que provavelmente é um dos mais famosos brasileiros no exterior, e um dos mais respeitados fotógrafos do mundo: “Trabalhadores,” “Migrações” “Sahel,” “Crianças ” e “Gênese.”
Inevitável que a trajetória nos leve para o mesmo sofrimento no qual Sebastião Salgado mergulhou com seu trabalho. “Nós, humanos, somos animais terríveis,” ele diz. “Seja na Europa, na África, na América do Sul, em toda parte, somos extremamente violentos. Nossa história é uma história de guerras. É uma história interminável, uma história de repressão, de loucura.” Ele diz isso por ter percorrido os campos de refugiados na África, ter revelado ao mundo imagens dos famintos e dos mortos das guerras étnicas, a queima dos campos de petróleo no Iraque, a brutalidade das guerrilhas. Mas é com o próprio Salgado que se volta a encontrar uma espécie de reconciliação com o mundo. Ele nos traz de volta a esperança, depois de um período na dor. Um filme denso, intenso, imperdível.
Conseguiu uma façanha: continua em cartaz em várias salas, mesmo com a brutal invasão dos blockbusters, que pouparam poucos cinemas, esta semana em particular.
São tantas as salas exibindo vingadores e heróis que pouco restou para o cinema menos, digamos, “ligeiro”. É o caso de “3 Corações”, de Benoît Jacquot, com três das maiores atrizes francesas (Charlote Gainsburg, Chiara Mastroianni e Catherine Deneuve) e o belga Benoît Poelvoorde, um dos grandes comediantes do cinema francês.
O três corações do filme são o de Poelvoorde (interpreta Marc, um fiscal da receita federal), e das irmãs Sophie (Charlotte Gainsbourg) e Sylvie (Chiara Mastroianni), unidos seja pelo parentesco, seja por uma coincidência. Marc se interessa por Sophie ao perder o trem que o levaria de volta para Paris e acaba conhecendo-a em um bar. Conversam a noite toda e combinam um encontro em Paris, no Jardim das Tulherias.
Marc não consegue ir a tempo, acaba tendo um pequeno problema cardíaco e Sophie retorna para o marido. A partir disso segue o filme, um romance como aqueles da época áurea do cinema americano, quase com um pé na influência de Douglas Sirk e outros grandes do gênero dramalhão. Isso porque Marc acaba conhecendo a irmã e Sophie (Chiara), tem um romance com ela e acabam casando, mesmo sabendo depois que é irmã de Sophie. As duas são filhas de Deneuve (Madame Berger)
A trilha sonora é onipresente, como nos filmes americanos da época e traz a ideia de um coração pulsando, deixando sempre a sensação de que algo está por acontecer, por melhor que seja a relação entre o casal – ele pede transferência para o interior – e têm um filho.
Mas é um filme francês, e nem tudo vem mastigadinho e explicado. Talvez ai é que resida o seu charme. Só um porém: mesmo sendo um excelente ator, Benoît Poelvoorde, não convence muito como o irresistível galã que parece interpretar, pela história. Ele está ótimo em “Românticos Anônimos” onde faz o tímido proprietário de uma fábrica de chocolate, ou “Nada a Declarar” sobre as desventuras de funcionário belga da alfândega, às vésperas da adoção do euro na UE, ou “Coco antes de Chanel” onde é um dos amantes de Coco Chanel, interpretada por Audrey Tatou.


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