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Restaurado, “Z” de Costa-Gavras, é imperdível

“Z”, um dos primeiros filmes do diretor grego Costa-Gavras, deve entrar em breve no circuito comercial paulista, mesmo porque já fez sua apresentação especial, sendo o clássico em destaque no […]

16/07/18

“Z”, um dos primeiros filmes do diretor grego Costa-Gavras, deve entrar em breve no circuito comercial paulista, mesmo porque já fez sua apresentação especial, sendo o clássico em destaque no último Festival Varilux de Cinema Francês.

É um filme que vai fazer 50 anos (é de 1969) e acaba de ser restaurado, o que manteve intacto seu poder como documento de uma ditadura em formação – nesse caso com os acontecimentos que precederam a chamada ditadura dos coronéis gregos (1967-1974), com roteiro do escritor espanhol Jorge Semprún (1923-2011) o mesmo de “A Guerra Acabou”, “A Confissão” e “Sessão Especial de Justiça”, entre outros.

Pois cinquentenário, “Z” teve seu público na apresentação no Cinearte (agora sob nova direção, com Petrobras no nome), durante o festival, com sala lotada e direito a palmas no final. O cinema de Costa-Gavras é praticamente didático. E a força dos atores –um elenco que incluiu Yves Montand, Jean-Louis Trintignant (recebeu o prêmio de melhor ator em Cannes pelo filme), Irene Papas, Jacques Perrin e Renato Salvatori só poderia ter resultado em uma obra-prima ao construir, bloco por bloco a montagem de uma ditadura, que marcou o país por décadas. E o título vem do significado da letra Z que em grego significa “Ele está vivo”.

A força de “Z” se manteve por todas essas décadas. Na época, recebeu o Grande Prêmio do Júri de Cannes, onde foi demoradamente aplaudido, além do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. E esse é apenas um dos filmes daquela época que mantiveram a qualidade, resistiram à passagem dos anos e dos acontecimentos e garantem a força de uma história. O diretor grego emocionou o mundo (não é força de expressão – o público era bem mais exigente naquela época) em seguida com “A Confissão” (1970), “Estado de Sítio” (1972) e “Desaparecido: Um grande Mistério” (Missing), de 1982. Os dois últimos muito próximos de nós, pois um retrata as ações da nefasta Operação Condor e o outro o caso dos desaparecidos que a ditadura chilena criou.

Bastante oportunos tais filmes, em uma época na qual a ingenuidade, ignorância e má-fé levam pessoas a ansiarem pela volta de uma ditadura no Brasil, não bastassem os problemas que enfrentamos também no tumultuado mundo no qual que a simples existência de um Donald Trump e suas doses cavalares de ignorância, colocam em sério risco. Sua política protecionista promete uma guerra mais implacável que Vietnã, Afeganistão, Coréia e outras e prejuízos para todos, pois a ameaças concreta é a de semear o desemprego, abalar a economia de todos os setores.

O mesmo Costa-Gravas retratou, mais recentemente, no ótimo “O Corte” (2005) até onde o desemprego pode levar uma pessoa: José Garcia interpreta Bruno Davert, que depois de perder seu emprego por causa de uma terceirização na empresa onde estava, decide por conta própria, “eliminar” a competição. Em outro filme recente, “O Capital”, trata das ações de uma corretora americana especializada em fundos de hedge, e sua incursão no mercado europeu.

“Z”, pela qualidade de seu roteiro, atores e diretor, passa a desconfortável sensação de que “é tudo verdade”. Mesmo porque retrata a real história do juiz de instrução interpretado por Trintignant, Khristos Sartzetákis, depois foi eleito presidente grego de 1985 a 1990. Yves Montand tem o papel de um deputado que vai fazer uma palestra, sabotada de todas as formas, ao mesmo tempo em que recebe muitas ameaças de morte. Trintignant é o encarregado do inquérito sobre o atentado e seus esforços para se manter na linha traçada também enfrenta as armadilhas que o poder prepara.

O filme, em resumo, é uma obra de arte e um documento histórico, como outras obras do autor, que acaba de lançar um livro de memórias, aos 85 anos. Livro cujo título já antecipa a história de vida desse combatente grego: “Va là où il Est Impossible d’Aller” (Vá até onde é impossível ir, em tradução livre)


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