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Por que 2016 foi o ano dos demagogos?

Leonardo Trevisan “Fomos avisados”. Com estas duas palavras, um dos principais articulistas do Financial Times, Lionel Barber, fechou o texto em que descreveu 2016 como “o ano em que a […]

por Leonardo Trevisan
26/12/16

Leonardo Trevisan
“Fomos avisados”. Com estas duas palavras, um dos principais articulistas do Financial Times, Lionel Barber, fechou o texto em que descreveu 2016 como “o ano em que a demagogia avançou”. Pela ordem, no longo artigo, Barber responsabiliza Brexit e Trump pelo avanço. Mas não só. Bem longe disso.

O importante neste texto não é a constatação, mas a resposta de por que e como os demagogos avançaram. E, por que, em 2016 a democracia perdeu.

É interessante cruzar este texto do FT com a percepção de Margaret Sullivan, crítica de Mídia do Washington Post, sobre a inesperada vitória de Trump, contra a opinião de toda a mídia americana mais tradicional. “Acho que a imprensa viveu seu ano do pensamento mágico”, resumiu Sullivan, explicando: “você vê a coisa diante dos olhos, mas pensa que é óbvio que aquilo não vai acontecer. Quem fala o que Trump fala, quem faz o que ele faz, era óbvio que não iria ganhar. E passamos o ano desse modo”.

Essa percepção sobre “pensamento mágico” ajuda bem a entender o que não foi feito quando eram visíveis os sinais do avanço dos demagogos pelo mundo. Nesse ponto, observar o debate prévio ao Brexit é essencial. Barber chama a atenção para figuras como Nigel Farage, líder do Partido da Independência do Reino Unido, pela saída da União Europeia, amigo de Trump. Embora não seja só ele, muito longe disso, Farage foi o primeiro a ter grande sucesso como exato representante do “demagogo canastrão, que explora as paixões da multidão, sustentado pelas emoções e pelo preconceito”.

É inadequado fazer comparações automáticas com a década de 1930 e ver em Trump, Farage ou Duterte, das Filipinas, como “fascistas principiantes”. Semelhanças com os anos 30 exigiriam uma Grande Depressão. E estamos bem longe de uma dessas: a economia americana, por exemplo, se aproxima do pleno emprego, a britânica, pré Brexit, abriu 2 milhões de vagas desde 2010, a Alemanha vai bem obrigado. O lucro das empresas subiu muito como mostrou Barber.

O problema é outro: quem mora na periferia das grandes cidades, seja onde for, não tem a sensação de que a economia cresceu. Nos EUA, 95% das famílias tinham, em 2015, renda média inferior à de 2007, dados do Economic Policy Institute. O desemprego na zona do euro não cai. Mas, o patrimônio da faixa do 1% mais rico, como apontou Barber no FT, note-se bem no Financial Times, “continua a crescer forte”. Só se entende bem essa aparente distorção entre sensação de economia frágil de quase todos e renda de muito poucos crescendo muito, quando se assimila, sem pré – conceitos de qualquer espécie, o impulso da acelerada mudança tecnológica.

Inteligência artificial impulsionou bastante a mudança na produção, nos últimos dois anos, em qualquer setor de atividade. Se o smartphone deu voz e conexão a todos, o impacto da inteligência artificial sobre o emprego (que o celular com internet acelera) mal começou a aparecer. Quem quer entender isso, basta pensar no Uber bem além do táxi. O Uber quer entregar de tudo a todos, não só movimentar gente no lugar do antigo táxi. Nenhum emprego ficará do jeito que está hoje nos próximos anos. Todo mundo percebe isso.

Mudança tecnológica nessa rapidez, mais concentração de renda bem acelerada teve efeito demolidor em outras esferas. Especialmente, na política. O artigo do Barber bota o dedo nessa ferida: Brexit e Trump atestam o fim do sistema partidário (nos dois casos, conservadores e progressistas tradicionais foram derrotados impiedosamente) e da divisão esquerda/direita. Centro esquerda, então… Nela, o declínio é quase fatal no mundo todo.

O desdobramento mais violento dessa “desilusão generalizada” nas democracias ocidentais atingiu em cheio a globalização. O artigo de Barber vê 3 tendências na globalização. Primeira, desregulamentação, desde os anos 80, os de Thatcher e Reagan (de consumo e especulação financeira); segundo, o Acordo da Rodada Uruguai, de 1994, que liberalizou comércio no mundo e, terceiro, China, como economia de mercado.

Um bom resumo da ascensão e queda da globalização foi o mercado comum europeu, lugar em que efetivamente aconteceu o abandono progressivo do controle de movimento sobre capitais, produtos, serviços e mão de obra, sem fronteira entre países. O apogeu dessa “união” da Europa foi no terceiro trimestre de 2007. Em 2016, na sentença trágica de Barber, a “Globalização 2.0 acabou”.

O ponto central desse raciocínio é que ficou bem mais difícil vender a ideia de livre comércio para quem está preocupado com estabilidade no emprego e concorrência de produção de país em desenvolvimento. Não só a China. Acelerar livre comércio, via TPP ( o acordo Trans-Pacífico) por exemplo, é acelerar esse medo e aumentar a instabilidade.

Os demagogos de plantão pegaram essa percepção e deram a ela bem acabada feição política. Em especial, no que diz respeito a movimento de pessoas sem controle rigoroso, típico da União Europeia, para citar um exemplo. Daí transformar imigração em “inimigo eleito” foi apenas um passo natural para qualquer demagogo de esquina.

Alguns políticos de democracias consolidadas não nasceram demagogos, mas preferiram o caminho fácil para o poder. Melhor exemplo, Thereza May, a nova primeiro ministro britânica pós Brexit, que foi escolhida depois de um ataque fulminante de Thereza ao multiculturalismo, impensável até então: “quem acha que é um cidadão do mundo é um cidadão de lugar nenhum”. Sem comentários. A tragédia da frase é explícita.

Falta entender o procedimento operacional para que os demagogos avançassem como avançaram em 2016. O fosso econômico entre vencedores e perdedores da globalização apareceu inteiro, primeiro no Brexit, depois com Trump. O problema é que esse alvo, a globalização, era irreal. A razão da vida piorar não estava no livre comércio, no imigrante, na visão esclarecida do mundo. Não eram estes os culpados pela instabilidade, pela crise de emprego e pela concentração de renda. Mas, não interessa a racionalidade, a exposição de fatos bem articulada.

Em 2016, o avanço do demagogo foi feito exatamente nesse ponto, o “fim dos fatos”. Esse é o x da questão do nosso tempo. Ao longo de 2016, na luta política em todo canto do mundo, na imagem precisa de Barber, os fatos passaram a ser “conceitos elásticos”.

Em 2016, o mundo despertou para a realidade eficaz das “notícias falsas” patrocinadas por ativistas políticos de qualquer origem. Como reproduziu o FT, foi Nell Hughes, comentarista da CNN, partidário de Trump, que fez o resumo certo: “o interessante na campanha eleitoral americana é que as pessoas dizem que fatos são fatos, quando não são realmente fatos. Todo mundo pode interpretar tudo como se fosse verdade ou não verdade. Infelizmente, não há mais tal coisa como fatos”. Bingo!

Este talvez seja o resumo mais eficiente da “era da pós verdade” de que falava a The Economist quando Trump ainda era visto só como um “canastrão”. A era da “pós verdade” significa que o político não tentará convencer o eleitor com argumentos, com “fatos” e sim tentará apenas açular os preconceitos já arraigados nesse eleitor. Nada mais. É exatamente nesse sentido que não importam os “fatos”, sejam eles quais forem. A mentira absurda e escandalosa, que apenas concorda com o preconceito já existente, vira verdade. Ponto!

É indiscutível que a demagogia de Trump rompeu todos os tabus clássicos, mexicanos como “estupradores”, ataque gratuito a mulheres, a muçulmanos, jornalistas e ao que fosse. Nada importa, nem mentir sobre a saúde da candidata democrata. O Washington Post provou que o candidato Trump mentiu sobre caridades a fundações que dizia ter feito. Mentiu sobre seu imposto de renda. Não interessa isso são “fatos”, não é o que vale na vigência da “pós verdade”, a “realidade”que parcela considerável do eleitorado queria acreditar. Na Inglaterra da Brexit, nos EUA de Trump, na França da Le Pen, na Alemanha da “Alternativa”, na Itália de Beppe Grillo, nas Filipinas de Duterte….

Nesse processo, ainda mais interessante foi o “pensamento mágico” do jornalismo. Tanto no Brexit como em Trump, a mídia mais tradicional apostou todas as suas fichas no que ela gostaria de ver acontecendo. Não no que estava acontecendo. “Pensamento mágico” é exatamente isso.

A trágica realidade, aquela construída pela “notícia falsa” e pela “pós verdade”, não foi captada pela mídia tradicional, nem pelas pesquisas eleitorais. Barber está assustado com os resultados do “populismo desenfreado” pelo mundo. O grave, de verdade, deste texto, é a frase final: “Fomos avisados”. Não adianta continuar a praticar “pensamento mágico” frente a este alerta.

Aos interessados, a íntegra do artigo de Lionel Barber no Financial Times está no endereço:
https://www.ft.com/content/7e82da50-c184-11e6-9bca-2b93a6856354

Bom Ano Novo a todos!


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