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“Philomena” traz uma das melhores duplas que o cinema já criou

Claudia Bonzo Escolher um filme pode obedecer a vários critérios, dependendo de cada pessoa. Tem quem não perde filme do George Clooney ou da Julia Roberts, outros gostam é dos […]

16/02/14

Claudia Bonzo

Escolher um filme pode obedecer a vários critérios, dependendo de cada pessoa. Tem quem não perde filme do George Clooney ou da Julia Roberts, outros gostam é dos gêneros: ação, comédia romântica, aventura, comédia, drama épico. E tem quem escolhe por país de origem, diretor ou atores.

Nesse último caso, “Philomena” é imperdível. É inglês, dirigido por Stephen Frears (o mesmo de “Ligações Perigosas”, de 1988, “A Rainha”, de 2006, “Alta Fidelidade” de 2000, “Coisas Belas e Sujas” de 2002 e do cult “Minha Adorável Lavanderia”, de 1985 entre muitos outros). E como atores, a mais que consagrada Judi Dench (a “M” dos filmes de James Bond, vista em “O Exótico Hotel Marigold” – vem aí o número 2 –, uma infinidade de peças de teatro e filmes e séries para TV). Ela concorre ao Oscar por este filme. A boa surpresa é Steve Coogan, um comediante que brilha em seu papel, como jornalista, e também como co-roteirista do filme.

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A história é real e já foi apresentada em 2004 no Brasil, em outro filme de 2002 dirigido pelo ator e diretor Peter Mullan: “Em Nome de Deus”. Talvez pela falta de grandes atores tenha passado meio em branco. Mas, também já foi exibido na TV a cabo e como “Philomena”, conta a emocionante saga de uma mãe irlandesa em busca de seu filho, que lhe fora tirado da instituição de freiras para onde ela foi enviada depois que a família a expulsa de casa, por ter engravidado de um estranho, aos 18 anos. Mullan, o excelente ator de “Meu Nome é Joe”, “Tiranossauro”, “Traisnpotting” recorre a um tom mais forte e faz um filme bastante dramático.

Só quando seu filho completa cinquenta anos é que Philomena decide contar à filha que as freiras daquela instituição deram seu filho Anthony para adoção, uma perda que jamais cicatrizou.  Ao conhecer um jornalista, a filha decide perguntar a ele se estaria interessado em pesquisar o caso para a mãe. Coogan interpreta Martin Sixsmith um respeitado jornalista – desempregado naquele momento – que embora especializado em história russa, escreveu o livro  “The Lost Child of Philomena Lee”, depois de tomar conhecimento da história, não sem esnobá-la inicialmente, por ser uma “dessas chamadas histórias de interesse humano”.

Pois Judi Dench e Steven Coogan formam uma das mais singulares e cativantes duplas do cinema, graças à leve e sutil direção de Frears, que jamais despenca na pieguice ou banalidade, auxiliado por um roteiro inteligente, que brilha na interpretação de atores tão bons. Ela, toda religiosa, leitora de novelas populares, com hábitos simples e uma comovente ingenuidade aliadas a uma inesperada perspicácia e filosofia de vida, que aos poucos vai se revelando. Ele, blasé, vivido, ateu, cínico mesmo. Os dois partem na jornada em busca do filho perdido que os leva primeiro à Irlanda, depois aos Estados Unidos.

Já saem com sérias desconfianças de uma entrevista na instituição religiosa irlandesa – que depois se descobriu, fazer parte de uma rede, com lavanderias e outros serviços que eram prestados de graça por moças como Philomena, no Reino Unido, na Austrália e outros locais. O espírito investigativo do jornalista atiça seu interesse.

Philomena, soube-se depois, foi uma das milhares de mulheres inglesas enviadas para os tais conventos –  dirigido pelas irmãs Madalena, uma alusão à pecadora da bíblia – sob a alegação de serem “degeneradas morais” sem permissão para manter seus filhos. Crianças que eram dadas – ou vendidas – para adoção a famílias ricas. Mais tarde a própria instituição pediu desculpas publicamente pelo mal causado a tantas jovens.

O problema é que falar muito mais sobre o filme pode estragar o prazer de ir descobrindo suas nuances aos poucos. É mesmo um filme inesperado, pois o tema sugere muitas lágrimas, com  ou sem violinos ao fundo, emoções, corações apertados. Pois nada disso acontece. É inteligente demais para cair nessas armadilhas e consegue mesmo surpreender. Apesar do tema, é o tipo de filme que leva alguém a sair feliz do cinema, pois a qualidade está presente. E nada supera qualidade, uma boa história e bons atores. Dirigidos por um dos melhores diretores do momento, então…


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