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Outra potência do cinema, a Nigéria, é abalada por casos de assédio

Claudia Bozzo Como qualquer epidemia dos tempos modernos, as doenças viajam de continente por continente. Seja pelos meios de transporte ou pelos meios de comunicação. E a onda de denúncias […]

03/12/17

Claudia Bozzo
Como qualquer epidemia dos tempos modernos, as doenças viajam de continente por continente. Seja pelos meios de transporte ou pelos meios de comunicação. E a onda de denúncias de assédio sexual, inaugurada contra Harvey Weinstein, em tempos de internet e TV a cabo, chegou até a Nigéria, o terceiro – ou segundo, de acordo com a estatística que se consulta – maior produtor de filmes no mundo, depois da Índia (Bollywood) e Estados Unidos (Hollywood).

Conhecida como Nollywood, a indústria cinematográfica nigeriana foi notícia na semana passada pois em novembro, a atriz Eniola Omoshalewa Eunice enviou uma queixa ao Ministério dos Assuntos das Mulheres, que encaminha as denúncias à polícia. Ela acusou um comediante, Yomi Fabiyi (prêmio de melhor ator no Nollywood Awards de 2016) de tê-la chantageado, em 2008. “Ele me disse que teríamos que dormir juntos antes que ele pudesse transformar-me em uma estrela”, relata a atriz, em reportagem do jornal Le Monde.

Essa denúncia, porém, foi precedida por outra, um mês antes de vir à tona o caso Weinstein. Emeka Rollas Ejezie, presidente da Associação de Atores manifestou a intenção de travar uma guerra contra o assédio sexual em Nollywood, denúncia à qual até agora ninguém deu atenção.

Em seguida à denúncia de Eniola, veio outra acusação, contra um ator veterano de 57 anos, Yemi Solade. Os casos estão ainda na fase de inquérito policial. Um golpe sério para uma indústria que movimenta US$ 3,3 bilhões por ano e produz dezenas de filmes por semana.

Aqui cabe informar que essa produção é toda em vídeo, pois o pais tem poucos cinemas e 90% da produção é de home vídeos. Há mais de 15 mil videoclubes e locadoras no país e uma pirataria altamente disseminada. Calcula-se, por exemplo, que cada filme tenha uma venda de 25 mil cópias.

Com quase 160 milhões de habitantes, a Nigéria abriga vastos núcleos de pobreza e algumas ilhas de prosperidade, sendo um dos maiores produtores mundiais de petróleo, e integrando com outros 12 países a Opep. Além de petróleo o país tem gás natural, estanho, minério de ferro, nióbio, chumbo e zinco. Aderiu à ideia de criar uma “Opep do Cacau”, com Gana, Costa do Marfim, Camarões e Indonésia, países que juntos produzem 80% da oferta mundial de amêndoas.

Ele abriga outra versão de Nollywood, que reúne os filmes produzidos no idioma hausa, do norte do país, a Kannywood, onde se sabe que o fim da impunidade está longe. Lá a lei predominante é a do silêncio e a pressão sobre as atrizes sob o domínio muçulmano é poderosa. Mas uma atriz de 21 anos, Rahama Sadau denunciou a chantagem sexual e foi dispensada pelo diretor do filme. O caso acabou em pizza, após a intervenção da poderosa associação que controla a indústria cinematográfica hausa.

A história não acabou ai. Como observa o artigo do Le Monde, “na terra da sharia e do cinema, a culpa é da vítima” e a atriz acabou sendo banida das telas para sempre, acusada de ter “tocado” um homem em um vídeo romântico.

Alguns diretores contra-atacaram na Nigéria e a premiada diretora Mildred Okwo denunciou outro fenômeno, que chamou de “corrupção por sexo”, acusando atrizes de se oferecerem em troca de papeis. Não poupou ninguém: também se queixou da pressão exercida pelos produtores, querendo impor atrizes pelas quais se interessam.

A emergência de Nollywood aconteceu no fim dos anos 1980, coincidindo com uma crise econômica que privou os produtores do acesso aos custosos materiais para filmagem em película. Nessa época, um grupo yorubá de teatro itinerante gravava suas performances em VHS e as fitas eram vendidas em lojas de eletrônicos.

Um dia, o dono de uma dessas lojas escreveu e patrocinou um longa-metragem rodado inteiramente em VHS. O resultado, Living in Bondage (1992), foi o primeiro blockbuster de Nollywood, com mais de 750 mil cópias vendidas. Hoje, os filmes independentes continuam a ser rodados, com um número cada vez maior de lançamentos no cinema. O formato para vídeo permite que as produções sejam não só econômicas – com custo entre US$ 30 e US$ 200 mil –, mas também rápidas, com filmagens durando entre três e quatro semanas. O preço final de uma cópia sai entre US$ 1,5 e US$ 3, que são consumidas vorazmente por um público de milhares de pessoas espalhadas pelo continente africano e também pelos que emigraram.

Segundo um site de cinema africano, cerca de 40% da produção no país é em pidgin english, 35% em yorubá, 17,5% em hausa e os 7,5% restantes em outras línguas e dialetos locais. Embora a distribuição seja um grande gargalo, Nollywood também começa a conquistar espaço em outros países da África, com seus atores fazendo sucesso de Gana a Zâmbia.


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