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Os retratos de Chico de Chatô, imperdíveis

Claudia Bozzo Os dias estão mais para cinzentos que azul brilhante no momento. Um pesado azedume nos acompanha ao trabalho, olha por trás dos nossos ombros quando lemos o jornal […]

06/12/15

Claudia Bozzo
Os dias estão mais para cinzentos que azul brilhante no momento. Um pesado azedume nos acompanha ao trabalho, olha por trás dos nossos ombros quando lemos o jornal e as conversas vão ficando desnecessariamente agressivas. É hora de tomar um antídoto contra esse clima.

Nada melhor que ver o documentário de Miguel Faria Jr., “Chico: Artista Brasileiro”. E sair do cinema com um sorriso e com o cofrinho de emoções cheinho.

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Como é bom retomar contato com um dos maiores músicos que o País tem, com sua leveza de espírito, sabedoria e rigor intelectual.
O documentário é formalmente arrebatador em sua simplicidade. A escolha dos músicos que interpretam canções de Chico, os arranjos e mesmo o bom gosto do cenário – trazem versões que dão destaque às magníficas letras de Chico, o arquiteto da escrita, o poeta que há várias gerações cria obras primas.

Chico não tem estrelismos. Conta rindo que várias pessoas chegam até ele, pedindo para tirar um ‘selfie’, dizendo: “Minha avó vai amar; ela é sua maior fã”. Esse retrato do artista na maturidade tem uma força enorme e marca o fosso que o separa de outros “ídolos” dos nossos tempos. Sua incrível modéstia não é forçada ou estudada. Ele é um brasileiro simples, sempre foi. É quase inacreditável vê-lo cantando em estádios, para multidões que hoje prestam reverência aos novos deuses, Madonna Paul McCartney e Rolling Stones.

Para as novas gerações, por exemplo, o impacto de ver um filme como “Uma Noite em 67”, documentário de 2010, dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil já trouxe um fenômeno inédito: as plateias, o entusiasmo e a participação (o possível, naqueles anos de chumbo que muitos querem de volta agora).

Um dos destaques do filme é o brutal assédio da censura ao artista e ele lembra que isso o foi tornando amargo, e o levava a “vingar-se” pelas letras – quem se esquece de “Apesar de Você”? E do prazer que havia em cantar essa música? Sentimento que não o tornava contente, nem aliviava a dor de ter sua arte mutilada, proibida, denegrida.

O Chico Buarque retratado por Miguel Faria Jr. (o mesmo diretor de “Vinicius”, de 2005; “República dos Assassinos” de 1979; “O Xangô de Baker Street”, de 2001) não desfila mágoas ou rancores por tais tempos. Personagem presente no que há de melhor dos últimos 50 anos, na cultura brasileira o hoje autor e dramaturgo, dialoga com a própria memória numa reflexão rica e saborosa para qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade por respeito a um texto bem escrito, uma poesia elaborada, ou a preocupação com o labor de escolher a palavra exata para o contexto no papel. E faz uma revelação: o que o levou a escrever seu último livro, “O Irmão Alemão”, depois de ter obras como “Budapeste”, o “Leite Derramado” traduzidas em todo o mundo.

Só uma coisa entristece. Em pleno sábado, ver um cinema com um décimo de sua ocupação. Mesmo com público reagindo ao filme e aplaudindo no final, é uma pena ver tanta capacidade ociosa numa sala de cinema. Que estaria cheia se fosse um daqueles “terremotos” ou “mad max”. Outro fator que desanima é saber que essa época de final de ano – não é psicológico – estamos desanimados, ou assediados por prazos, por tarefas urgentes, piora no trânsito e as tais compras natalinas que congestionam a cidade. Claro que ir ao cinema acaba ficando em segundo plano.

Pois esta semana, muito ruim para os lançamentos, entraram em cartaz SETE (!) novos filmes brasileiros. Sem contar com o incrível “Chatô, o Rei do Brasil”, inspiradíssimo filme de Guilherme Fontes, baseado em livro de Fernando Morais ainda em exibição, mas em apenas quatro salas. O filme, que aguardou pelo menos 15 anos até vir ao público, envolto em controvérsias, é uma surpresa. Das melhores. Tem um tom de farsa, alegoria que certamente remete a influências felinianas, tropicalistas e macunaímicas. É como se Fellini tivesse retratado o cidadão Kane. Mas o Brasil está inteirinho lá, da antropofagia aos seus políticos, ao poderoso e influente reino de comunicações de Chateubriand.

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Teorias da conspiração a parte, é correto lançar tantos filmes brasileiros numa época dessas, na qual pouca gente vai ao cinema e com as férias se aproximando? Claro que não! E é uma pena que, apesar das críticas tão favoráveis para tais filmes, poucos encantem com nossas realidades. O fraquinho (em relação aos outros mencionados) “Que Horas Ela Volta”, por exemplo, ainda está em cartaz, mesmo porque é uma aposta para o Oscar. Mas muitos desses lançamentos passarão em branco.


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