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Os italianos trazem seus talentos de volta às telas

Claudia Bozzo  Faltando bem mais de um mês para a entrega dos Oscar de 2019, a máquina da promoção está a mil por hora. Não faltam, em jornais, ou internet […]

14/01/19

Claudia Bozzo 

Faltando bem mais de um mês para a entrega dos Oscar de 2019, a máquina da promoção está a mil por hora. Não faltam, em jornais, ou internet ou programas de TV, as recomendações de filmes que não se deve perder, pelas chances de premiação que trazem. Quanta bobagem!

Por exemplo, alguém conhece alguém que conheça alguém ou tenha ouvido falar de alguma pessoa que assistiu – e gostou – de “Nasce uma Estrela”? Apesar da máquina promocional, parecia até que o filme tinha sido ignorado pelo Globo de Ouro, quando acabou recebendo dois prêmios de consolação, um técnico outro de melhor música.

Ao mesmo tempo, alguém ouviu uma pessoa falar mal de “Bohemian Rhapsody”? Sem chance, quem vê fica fã. Por sorte o ator Rami Malek foi premiado, muito justamente.

Então, como se movimentar nessas águas no período em que as telas serão inundadas pela maré de candidatos? Fácil, é só ignorar o “apelo” Oscar, a não ser pelas indicações de candidatos a melhor filme estrangeiro, que normalmente trazem uma boa seleção e um belo padrão de qualidade. Exemplo perfeito é “Roma” (na Netflix), do mexicano Alfonso Cuarón, a grande revelação do cinema com “E Sua Mãe Também” de 2001

E pode ser que este ano a Itália entre na seleção, pois está com vários bons filmes, num ano quase excepcional. Não dá para ignorar o belo, poético e mágico “Lazzaro Felice” da diretora Alice Rohrwacher (a mesma de “As Maravilhas”, 2014), também na Netflix. Nem “Dogman” de Matteo Garrone, o mesmo diretor de “Gomorra” (2008) e “Reality, A Grande Ilusão” (2012). Sem contar “Emma e as Cores da Vida” de Silvio Soldini, o mesmo de “Pão e Tulipas” (2000) e “Ágata e a Tempestade” (2004), filmes que tiveram um público significativo e recepção ótima quando exibidos aqui.

Todos esses filmes, somados à série apresentada pela HBO, baseada nos romances de Elena Ferrante, “A Amiga Genial” que traz um genuíno sabor de Itália dos tempos do neorrealismo, mostrando a antiga Nápoles, fazem prenunciar uma boa indicação: os italianos estão voltando. E trazendo junto suas melhores características: a arte de saber contar uma história, a arte de interpretar e a emoção entrelaçando esses dois outros saberes.

Mas não se trata de tirar a poeira de antigos êxitos. Essa geração de Rohrwacher, Garrone, Soldini é formada por jovens com sólida formação cinematográfica, e a maioria escreve os roteiros de seus filmes. O que eles teriam em comum seria a atração pela fantasia, pelo terreno do sonho, por onde transita a inevitável criatividade. É o caso de “Lazzaro Felice” que une a ressuscitação de Lázaro aos tempos modernos, de exploração de trabalhadores na rural cidade de Inviolata, numa hábil transposição de presente-passado, que acaba funcionando muito bem.

Em “Dogman”, o humilde e terno Marcello, leva uma vida solitária, cujo grande prazer é praticar mergulho com a filha e cuidar da “pet shop” onde dá banho e cuida de cães. Mas é perseguido pelo cruel e intempestivo ex-boxeador Simone, um viciado que o escolhe como alvo de perseguição. Parece até ter sido filmado em preto e branco, refletindo o ambiente onde se passa. E segundo a definição do diretor Mateo Garrone, “mostra a história  de um homem que perde sua inocência para salvar a si próprio”.

Tomara que a tendência se mantenha e a Itália volte às telas. Essa sim seria uma boa notícia.

E antes de encerrar, um lembrete: o ótimo filme dinamarquês “Culpa”, ainda em exibição em São Paulo, que com apenas um ator em cena, o tempo todo, consegue prender a atenção, graças à qualidade do roteiro e talento do ator Jakob Cedergren.


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