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“Oh Lucy!” maneja o inesperado em tons suaves e muito talento

O tipo de filme com o qual todo fã do bom cinema espera topar numa tarde de sábado é algo como o japonês “Oh Lucy!”. O inesperado da trama, das […]

02/07/18

O tipo de filme com o qual todo fã do bom cinema espera topar numa tarde de sábado é algo como o japonês “Oh Lucy!”. O inesperado da trama, das situações, dos personagens chega como uma brisa de ar fresco, embora de vez em quando traga o amargor de uma certa tristeza, de uma solidão persistente.

Trata-se de história de Setsuko, uma das muitas formiguinhas corporativas tão presentes na literatura e na realidade do Japão. O filme começa de uma forma impactante: pela manhã, ao ir para o trabalho numa estação do metrô, um homem vem por trás de onde Lucy está, coloca a mão no seio dela, diz “até logo” e salta em frente ao trem.

Claro que de certa forma, a gente fica esperando por algum drama posterior. Mas não, a vida segue normalmente. No trabalho, as pessoas perguntam a ela se chegou a ver o homem depois que ele caiu e uma das funcionárias até comenta que “ainda não vi isso acontecer na minha frente”, e todos voltam para o trabalho.

Setsuko (interpretada por Shinobu Terajima), uma solitária funcionária de seus 50 e tantos anos, que passa por aquela provação na estação do metrô, se refugia no cigarro, um hábito criticado por todos, pois uma persistente tosse a persegue.

Naquela mesma manhã ela recebe o telefonema da sobrinha, que quer encontrá-la na hora do almoço. Vem com um pedido: precisa de 600 ienes, e quer vender para a tia o restante das aulas de inglês para a qual se inscreveu, pois, a escola não permite devolução do dinheiro em caso de desistência.

Relutante, Setsuko vai até a escola, onde fica sabendo que precisa assistir uma aula teste antes de iniciar o curso. É o primeiro passo para uma transformação irreversível. O expansivo professor é John (Josh Hartnett) protótipo do galã americano com um uma didática no mínimo estranha. Gosta de abraçar os alunos, rebatiza-os (é quando Setsuko transforma-se em Lucy) e além do novo nome, entrega a ela uma peruca loira.

Com relutância, uma vida passada em meio à timidez se transforma suavemente com aquela peruca loira e a nova Lucy acaba tornando-se mais expansiva, vai se soltando aos poucos. Tem um colega novo nas aulas, que é batizado de Tom, e interpretado pelo ator Kôji Yakusho, o inesquecível intérprete de “Dança Comigo?” (1996) filme depois refeito com Richard Gere no mesmo papel, mas sem a mesma delicadeza e sensibilidade da obra original.

O importante do filme dirigido e escrito por Atsuko Hirayanagi é que nada fica onde está por muito tempo. O roteiro segue em passos firmes e coerentes, sem grandes explicações e sem grandes mistérios. John desiste de dar aulas e é substituído por uma professora mais retraída. Setsuko resolve tirar férias e quase sem se dar conta, você está logo em seguida acompanhando os personagens, incluindo Ayaku, a irmã-megera de Setsuko em uma espécie de road movie, pois elas foram até o sul da Califórnia em busca da sobrinha que tinha ido para os EUA com o professor, John.

Entre os muitos sites dedicados a cinema, o Rotten Tomatoes é um dos melhores e tem um medidor de popularidade dos filmes, em dois níveis: o da critica especializada e dos frequentadores do site. Pois o “tomatrômetro”, entre os críticos, atingiu um nível de 100% de aprovação, o que não é comum, ainda mais tratando-se de um site americano, referindo-se a um filme japonês. Uma história bem contada, sem concessões melodramáticas, com excelentes atores. Precisa mais?


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