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“O Túnel”, A `Ponte”: como uma série pode ser adaptada para três fronteiras

Claudia Bozzo Um é pouco, dois é bom, três é melhor ainda. Estamos falando do seriado “A Ponte”, uma produção conjunta das TVs dinamarquesa e sueca, apresentada pela primeira vez […]

01/01/17

Claudia Bozzo
Um é pouco, dois é bom, três é melhor ainda. Estamos falando do seriado “A Ponte”, uma produção conjunta das TVs dinamarquesa e sueca, apresentada pela primeira vez 2011. Depois disso, espalhou-se pelo mundo, sendo vista em cem países. Ganhou duas adaptações importantes, uma norte-americana, “The Bridge”, que pode ser vista no Netflix, e a versão franco-britânica “O Túnel”, transmitida pela HBO em 2016.

Embora os roteiros das três séries sigam a história original, que vinha sendo gestada por Hans Rosenfeldt, seu roteirista e criador, desde 2006, há importantes adaptações, o que só acrescenta interesse às tramas.

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Os personagens centrais nas três séries continuam sendo um detetive de cada país. No caso da temporada original, são a policial sueca Saga Noren (interpretada por Sofia Helin) e o inspetor dinamarquês Martin Rohde, papel de Kim Bodnia. Eles são designados para o caso pois uma mulher foi encontrada morta exatamente no meio da bela ponte Øresund, que liga Copenhague a Malmo. Metade do corpo em um país, metade em outro. E descobre-se que a vítima não é uma, são duas: o torso de uma importante autoridade e da cintura para baixo, de uma prostituta desaparecida há meses. Aí não há retorno: os dois policiais terão de trabalhar juntos.

A série explora as idiossincrasias entre suecos e dinamarqueses, com personagens muito bem construídos. A policial Saga, por exemplo, chegou a ser descrita como uma portadora de autismo, e a talentosa Sofia Helin dá consistência à personalidade no mínimo estranha, que leva para as três primeiras temporadas (a boa notícia é que uma quarta série está em gestação pelos nórdicos). São 10 episódios por temporada, que provavelmente ainda estão à disposição dos assinantes pelo Now, da Net.

“A Ponte” (“Bron, Broen”, em sueco e em dinamarquês) tem episódios que envolvem ecoterrorismo e serial killers, tudo recheado com interessantes abordagens sobre seus participantes, sejam os dois policiais, como o inspetor-chefe ou familiares. Em seu blog, o roterista e criador de toda essa riqueza em personagens e histórias, Hans Rosenfeldt, explica que sua intenção era fugir dos estereótipos de policiais, em sua maior parte divorciados, com um complicado ou nenhum contato com ex-esposas e filhos, pouco conversadores, “mantendo para si a maior parte de suas emoções, bebendo muito e ouvindo ópera ou jazz. Eu queria algo mais, alguém diferente. Um personagem aberto, com empatia e uma grande família amorosa”. E a série deixa bem claro, desde o início, que Martin fez uma vasectomia, pois tem vários filhos de mais de um casamento.

E ele continua, dando pistas sobre a construção de Martin e Saga: “eu queria alguém que gostasse de bater um papo, tivesse curiosidade a respeito de seus colegas e se ligasse às emoções deles”. Daí veio Martin. “Mas quem eu traria da Suécia? E se o detetive sueco fosse uma mulher, sem qualquer interação social com seus semelhantes?”

É uma descrição de Saga: “ela aprende tudo que lê, mas quando se trata de interagir com outra pessoa, fica completamente. Agora, a mídia e o público decidiram que ela é portadora da síndrome de Asperger. Mas ela nunca recebeu esse diagnóstico na série”, completa Rosenfeldt, que é sueco e atua como roteirista, apresentador de rádio, romancista e ator.

A versão norte-americana

Logo após a apresentação de “Bron, Broen”, veio em 2013 a versão norte-americana de “The Bridge”, com 26 episódios, produzida nos EUA e trazendo Demian Bichir como o policial mexicano Marco Ruiz e Diane Kruger como a norte-americana Sonia Cross, unidos para investigar uma morte na Ponte das Américas, entre El Paso e Ciudad Juarez. Ele é de Chihuahua. A adaptação ao clima local é feita com a indolência das autoridades policiais mexicanas e o grande peso exercido pelas drogas, tráfico de mulheres e cartéis de traficantes nessa região. Essa versão, bem competente, está no Netflix.

Agora, a produção franco-britânica, da Sky e Canal + com duas temporadas, de 2013 a 2016, reflete todo o talento dos profissionais desses dois países. “The Tunnel” tem como local do crime o Eurotunnel, e se passa na região de Calais (tristemente nos noticiários das últimas semanas, pelos acampamentos de refugiados) e Folkstone – e os policiais Elise Wasserman, interpretada por Clémence Poesy e pelo britânico Stephen Dillane no papel de Karl Roebuck (quem acompanha “Game of Thrones” deve tê-lo visto, e também em “The Crown”). A primeira temporada destaca as diferenças entre franceses e britânicos, com o senso de humor do detetive Karl sendo meio que espezinhado pela francesa. As diferenças gastronômicas dizem presente e o roteiro dedica-se também aos desafios que a União Europeia enfrenta.

A adaptação é interessante e a segunda temporada traz a forte preocupação com o terrorismo, com um ângulo abrangente. A serie é falada, como seria de se esperar, em francês e inglês, mas todo mundo acaba se entendendo, apesar de algumas dificuldades.

Sendo uma produção meio a meio, a equipe de filmagem de “The Tunnel” é uma mistura dos dois países e segundo os produtores, nenhuma das partes teve o controle final. Foram contratados roteiristas britânicos e franceses e diretores e claro, o script foi escrito nos dois idiomas. Cinco diretores convocados, três britânicos e dois franceses. A inglesa Jane Featherston, principal executiva da produtora Kudos, comentou essa colaboração: “nós trabalhamos de forma bastante colaborativa para garantir que o programa fosse atraente para os espectadores dos dois países. Honestamente, ainda não sei se tivemos total sucesso nisso. Os franceses gostam das coisas um pouco mais lentas, e nós gostamos delas mais ágeis”.

Para Julia Readside, do jornal britânico The Guardian, a série “confirma Dillane como um de nossos melhores atores”. Ela elogia a atuação e Poésy e o relacionamento entre os dois protagonistas, que “revela a desconfortável química que há entre eles”.

Seja qual o idioma ou país de origem escolhido, “A Ponte” e “O Túnel” merecem ser vistos. Inclusive pelas adaptações feitas para cada um dos países fronteiriços nos quais se passa a ação


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