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O site mais perigoso do mundo, em “O Quinto Poder”

Claudia Bozzo “O Quinto Poder”, filme que retrata o começo da epopeia WikiLeaks, chegou a ser exibido em trailers nos cinemas de São Paulo. Mas seu desempenho nas telas de […]

03/08/14

Claudia Bozzo

“O Quinto Poder”, filme que retrata o começo da epopeia WikiLeaks, chegou a ser exibido em trailers nos cinemas de São Paulo. Mas seu desempenho nas telas de outros países fez com que os exibidores o lançassem apenas em DVD.  Foi o maior fracasso de bilheteria nos Estados Unidos, em 2013, com apenas 21% de retorno sobre o capital investido.

Captura de Tela 2014-08-03 às 13.07.06

Isso apesar da história, que recorta um dos importantes momentos de transição na nossa cultura e desenvolvimento tecnológico, que inclui toda a mobilização das redes sociais, dos sites de denúncias e mudanças na mídia. O filme tem também uma grande seleção de atores: Benedict Cumberbatch (que está em todas no momento, de “Star Trek” a “Hobbit” e “12 Anos de Escravidão”, além de “Sherlock Holmes”. Tem Daniel Bruhl (de “Adeus Lênin”, 2003), David Thewlis (“de “Assédio”, filme de Bernardo Bertolucci, de 1998), Peter Capaldi (excelente ator escocês que fez inúmeras séries para a BBC e acaba de ser escolhido o 12º “Doctor Who”) e Stanley Tucci, um dos grandes atores norte-americanos, além de Moritz Bleibtreu, que fez “Corra Lola, Corra”(1998), o ótimo “Soul Kitchen” (2009).

Isso só prova que grandes atores e boas histórias podem nada representar, se caírem nas mãos erradas. O diretor, Bill Condon, norte-americano, tem em seu currículo a saga “Crepúsculo”, “Dreamgirls: Em Busca de um Sonho” (2004) e “Kinsey, Vamos Falar de Sexo” (2000). Sem dúvida o tema exigia mais. As coisas pioram quando se sabe que o escolhido para o papel de Julian Assange não era Cumberbatch e sim Jeremy Reiner (de “Guerra ao Terror “ e “Trapaça”).

Afinal, a ideia de um poder que venha a se tornar o quinto (a imprensa ainda é o quarto poder, sabe-se lá por quanto tempo ainda) é fascinante e deveria ser tratada com mais talento. Certamente os espectadores atraídos por esse tipo de filme não iriam rejeitar a ideia de um aprofundamento no tema. Mas isso não acontece.

O início é interessante, mostrando numa sequência de fotos e imagens o que todo aluno de Jornalismo ouve em suas aulas iniciais: as primeiras inscrições em cavernas, o registro em hieróglifos, a criação dos tipos móveis, os primeiros jornais,  o afundamento do Titanic, o fim  da guerra, depois o rádio e a TV com trechos de noticiários na morte de John Kennedy, a queda do muro de Berlim, o 11 de setembro, e em sequência a internet, o mundo digital. Traz os diálogos entre três jornais, de diferentes países, que saem com as informações do Wikileaks sobre o Afeganistão: O britânico The Guardian, o norte-americano The New York Times, e a revista alemã Der Spiegel. Todos preocupados em checar as informações, antes de transmiti-las aos leitores. “Cortando cada t e colocando o pingo em cada i”, como se diz dos alemães.

Esse é um ponto fundamental de toda essa discussão. Checar, checar, checar. Foi o que sempre moveu a imprensa séria, verbo acintosamente desprezado pelas chamadas mídias sociais, onde o que conta é a opinião, o “eu fui o primeiro a informar” e onde as grandes vítimas são, muitas vezes, a verdade e a reputação das pessoas. Para assassinato de caráter, nada como uma opinião disfarçada de informação. Mas são os tempos da rapidez, do imediato, do breve.

O WikiLeaks, como diz seu nome, é um site dedicado ao vazamento de informações, venham, de onde vierem. “É uma organização transnacional sem fins lucrativos, sediada na Suécia, que publica, em sua página (site), postagens (posts) de fontes anônimas, documentos, fotos e informações confidenciais, vazadas de governos ou empresas, sobre assuntos sensíveis”, informa a Wikipedia. Existe desde dezembro de 2006 e, em meados de novembro de 2007, já continha 1,2 milhão de documentos.

“O Quinto Poder” traz um retrato de seu fundador, o complexo australiano Julian Assange, jornalista e ciberativista, interpretado com brilho por Benedict Cumberbatch. Mais preocupado em mostrar a personalidade de Assange, o filme tem como base o livro de Daniel Domscheit-Berg (no filme, o ator Daniel Bruhl), Inside WikiLeaks: My Time with Julian Assange at the World’s Most Dangerous Website.Baseia-se também no livro de dois jornalistas do The Guardian, David Leigh e Luke Harding: WikiLeaks: Inside Julian Assange’s War on Secrecy.

Um dos pontos essenciais da trama é a desilusão de Daniel Domscheit-Berg, que atuou como porta-voz de Assange, com o inflado ego de criador do site, que em pouquíssimo tempo foi elevado à categoria de personalidade internacional. Domscheit-Berg chega a contestar os métodos, tática e ética do fundador.

Com discordâncias ou não – o rompimento entre ambos era inevitável – o certo é que a ação desses guerrilheiros cibernéticos mudou as relações entre os países e a própria noção de informação. Como Edward Snowden, outro desses ativistas, ex-funcionário da CIA e ex-contratado da NSA que tornou públicos detalhes de vários programas de espionagem, e agora pede asilo no Brasil, Assange vive como refugiado na embaixada do Equador em Londres, desde 2012.

Na verdade, é até difícil ter um bom distanciamento de temas que simplesmente estão acontecendo neste momento. Em uma entrevista à TV britânica, Cumberbatch revelou ter ficado muito impressionado com Assange, e que admira sua atitude.Em uma entrevista ao ‘he Guardian, o ator contou que Assange tentou persuadi-lo a não aceitar o papel no filme e enviou-lhe um e-mail com 10 páginas na tentativa de fazê-lo desistir das filmagens, um dia antes do início das gravações no set. “Era um texto bastante consistente e inteligente sobre como ele achava moralmente errado para mim fazer parte de algo que Assange julgava ser prejudicial para ambas as partes’, disse Cumberbatch.

Mas ainda há muito a ser escrito sobre toda essa histrória. Se isso vai acontecer pelos jornais, é algo lamentavelmente incerto. Na internet, sem dúvida estará.


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