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O segredo do sucesso de mais um filme argentino, “O Cidadão Ilustre”

Claudia Bozzo O sucesso do filme premiado e bem recebido pela crítica “O Cidadão Ilustre” pode ser creditado tanto ao protagonista, Óscar Martínez, que recebeu a Copa Volpi de melhor […]

21/05/17

Claudia Bozzo
O sucesso do filme premiado e bem recebido pela crítica “O Cidadão Ilustre” pode ser creditado tanto ao protagonista, Óscar Martínez, que recebeu a Copa Volpi de melhor ator no Festival de Veneza, como aos competentes diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn (roteiro de Duprat). Os dois últimos já tiveram uma obra apresentada em São Paulo, o inquietante “O Homem ao Lado”, sobre o vizinho que resolve construir em sua casa uma janela que invade a privacidade do outro. Essa casa, em La Plata, foi projetada pelo famoso arquiteto Le Corbusier e é a única obra dele presente nas Américas. Moderna por fora e por dentro, a casa é cheia de rampas e vidros, mas ao mesmo tempo, não parece ser habitada por nada ou ninguém. Mas é.

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Duprat e Cohn voltam com filme igualmente denso, que a princípio se parece mais com uma comédia, com um ácido senso de humor e tiradas inteligentes. É um filme argentino, portanto mais que justo esperar por um roteiro inteligente, bons atores, conteúdo e excelência. “O Cidadão” do título é um escritor, Daniel Mantovani, vencedor do Nobel de Literatura. Depois de receber o prêmio, isola-se em sua casa na Espanha, onde vive há 30 anos e rejeita todo e qualquer convite para participar de conferências, eventos e solenidades. Até que lhe chega um convite vindo de sua cidade natal, a pequena Salas, que quer homenageá-lo. Para criar Salas e um microcosmo que abrigue a “alma” argentina, com o que o país possui de melhor e ou pior, os diretores filmaram externas criando uma cidade “Frankestein” em Navarro, Cañuelas, Aldo Bonzi e Lomas de Zamora

Para esse novo projeto, Cohn e Duprat tiveram um orçamento de US$ 1,7 milhão, o dobro do recebido por “O Homem ao Lado”, vencedor do prêmio de melhor filme no Festival de Sundance de 2010 e com boas bilheterias na Europa e nos Estados Unidos. Em entrevista a um site argentino, comentaram que existem centenas de formas de fazer filmes. “Estamos em busca das inovadoras”. Para o crítico Benjamín Harguindey, de “Escribiendo Cine” esse é o melhor já feito pelos dois, até agora, e ele prevê que “tem todo o jeitão de vir a converter-se em outro clássico moderno do cinema argentino”.

Sem dúvida, Óscar Martínez tem uma grande participação nesse sucesso. O ator tem atuação marcante como o escritor e ainda pode ser visto em “Relatos Selvagens”, filme lançado em outubro de 2014 em São Paulo, que continua em exibição no Caixa Belas Artes, onde é, em um dos episódios, o pai que tenta livrar o filho de uma encrenca e é chantageado de todos os lados. Outro de seus filmes exibidos no Brasil em 2009 é “O Ninho Vazio” (2008), de Daniel Burman, no qual contracena com Cecilia Roth. E as salas de cinema já exibem cartazes de um novo filme seu, “Inseparáveis”, de 2006, uma refilmagem do sucesso francês “Os Intocáveis” (2011), de Olivier Nakache.

Martínez une-se à formidável constelação de grandes atores do cine argentino, que inclui Ricardo Darin (“O Segredo dos Seus Olhos”, 2009); Dario Grandinetti (“Relatos Selvagens”, 2014); Leonardo Sbaraglia (“No Fim do Túnel”, 2014” e “Relatos”); Hector Alterio (”História Oficial”,1985 e “O Filho da Noiva”, 2001); Eduardo Blanco (o amigo do filho da noiva); Júlio Chavez (“O Guardião”, 2006) e tantos outros. Sem contar as atrizes do nível de Norma Aleandro (“O Filho da Noiva”, “História Oficial”), Cecilia Roth (“Kamchatka”, 2002 e “Tudo Sobre Minha Mãe” 1999.

“O Cidadão Ilustre” traz para a tela temas argentinos e globais. Um deles, a rejeição à visão crítica e externa representada pelo protagonista, exilado há décadas na Europa, frente ao nacionalismo extremado de seus conterrâneos. A exaltação da vida provinciana soma-se a uma espécie de ferida aberta no orgulho argentino, por ter grandes escritores como Jorge Luis Borges, por exemplo, e nenhum Nobel de Literatura. Recebido na cidade pelo prefeito e pela “miss” local, O escritor é levado em um carro do corpo de Bombeiros, como se fosse um herói do futebol. E não há que deixe de observar que ele se une aos grandes ídolos, Diego, o papa e Messi.

Daniel Mantovani é descrito por Óscar Martínez como um personagem contraditório “como todos nós”. Ele define o filme como “incômodo” por ser um tipo de espelho “que nos devolve a imagem que não queremos ver de nós mesmos. Um mostruário barroco de uma sucessão de coisas que particularmente abomino no argentino. O fanatismo ideológico, a violência a docilidade nas pessoas do povo, o chauvinismo espantoso e a destruição do ídolo”. Precisa mais?

E é bom ficar de olho na dupla Mariano Cohn y Andrés Duprat que competirá na Culinary Zinema 64º Festival Internacional San Sebastián, com um filme “Todo Sobre el Asado”. Tudo sobre o churrasco, informa Óscar Martínez, é uma outra viagem à Argentina profunda onde a comida é ao mesmo tempo um ritual primitivo, contemporâneo, selvagem e refinado, arte e ciência. “Esses dois ‘hijos de p…” serão expatriados quando for apresentado na Argentina o que acabam de fazer. ‘O Cidadão Ilustre’ é Disneylândia, em comparação.” Bem, o apetite dos cinéfilos ele já atiçou.


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