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O segredo do fracasso de “Conspiração e Poder”

Claudia Bozzo É estranho como algumas fórmulas consagradas podem dar errado às vezes. Juntar Robert Redford a um tema político e acrescentar jornalismo costuma ser receita de sucesso e qualidade. […]

27/03/16

Claudia Bozzo
É estranho como algumas fórmulas consagradas podem dar errado às vezes. Juntar Robert Redford a um tema político e acrescentar jornalismo costuma ser receita de sucesso e qualidade. Mas dessa vez, em “Conspiração e Poder” o resultado é fraco, fraco. E não só porque o tema é “norte-americano” demais, e pelo fato de o personagem central, o âncora de uma das maiores redes dos Estados Unidos, Dan Rather, da CBS, pouco ter a ver com nossa cultura. E pouco famoso, pois embora o jornal diário, assim como o “60 Minutes” fossem transmitidos aqui, há tempos, por uma emissora da TVA, a audiência nunca passou de um traço.

O filme trata de uma reportagem do famoso jornal semanal da CBS, o “60 Minutes”, sobre o presidente George Bush, que teria sido favorecido pelas suas conexões, e escapar de servir nas forças armadas durante a Guerra do Vietnã. O tema, explosivo, foi transmitido pelo programa semanal antes das eleições que dariam o segundo termo a Bush.

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É um filme sobre jornalismo, que sai pouco depois do bem-sucedido desempenho de “Spotlight”, premiado com um Oscar de melhor filme, narrando a batalha dos jornalistas do Boston Globe para revelar o escândalo de pedofilia que envolvia parte do clero local. Os dois tratam de fatos verídicos, de personagens reais. Mas um é bom : “Spotlight”. O outro, “Conspiração e Poder”, é convencional, desinteressante e francamente um tédio!

Para um dos críticos do jornal britânico The Guardian, o segredo do fracasso de “Conspiração e Poder” é o fato de retratar um “looser”, no caso Rather, nascido no Texas, que durante 24 anos foi âncora da CBS, sucedendo no cargo outro dos famosos ícones do jornalismo televisivo dos Estados Unidos, Walter Cronkite. Qualquer documentário que fale na morte de John Kennedy, por exemplo, transmite o comunicado feito ao vivo por Cronkite, que tira os óculos depois de anunciar, visivelmente emocionado, que o presidente estava morto. Em seguida, olha para o relógio e diz as horas.

A importância dos âncoras era imensa. TV a cabo não existia, nem internet e Netflix, nem pensar! Revezavam-se na liderança de audiência Rather, Tom Brokaw (NBC) e Peter Jennings (ABC), nos jornais da noite.

“Conspiração e Poder” trata de uma reportagem feita para o “60 Minutes”, em seguida à bem-sucedida matéria do mesmo programa, sobre abusos de soldados dos Estados Unidos contra prisioneiros no Iraque, na prisão de Abu Ghraib, matéria produzida pela jornalista Mary Mapes. Cabe aqui uma observação: nos Estados Unidos, liberal ainda é palavrão, e a rede CBS era considerada a mais liberal de todas. E fazia questão de manter suas ideias, seus princípios, mesmo porque não fazia parte de grandes conglomerados industriais, como outras emissoras. E a reportagem sobre a prisão iraquiana certamente atiçou seus críticos.

Pois a equipe, sob o comando de Mary Mapes mergulhou fundo na denúncia contra Bush – alguém na equipe lembra que o presidente recebera apenas 537 votos a mais que Al Gore, na tumultuada eleição de 2000 – e as fontes foram checadas, assim como tentou-se averiguar a autenticidade dos documentos fornecidos, o que era complicado, pois eram cópias de documentos, não originais.
Foi nesse detalhe que se focaram os defensores de George W. Bush e depois os executivos da empresa, que criaram uma comissão especial de investigação interna. O resto é história, mas não vamos adiantar e estragar o interesse de quem não acompanhou o caso.

No entanto, quem aprecia o tema não vai se decepcionar com um seriado britânico de 2011, “The Hour”, que fala sobre a criação, na BBC, de um jornal semanal – transmitido ao vivo – nos moldes do “60 Minutes”. Mesmo mostrando um thriller de espionagem em plena guerra fria, o seriado tem o jornalismo como centro, defendido por um elenco impecável, com Dominic West (o âncora), Romola Garai (a produtora), Ben Whishaw (o atual Q dos filmes de James Bond) e Peter Capaldi, (o novo Doctor Who). Imperdível. O melhor de tudo: está em exibição no Netflix.

Da decepção de “Conspiração e Poder” sobra a lembrança do magnífico Robert Redford em “Todos os Homens do Presidente”, no papel de Bob Woodward, ao lado de Dustin Hoffman (como Carl Bernstein). Quantas gerações devem ter sido influenciadas por tal filme, a seguirem a profissão de jornalista. Quantas! E a CBS, depois de Dan Rather, ousou colocar uma mulher à frente do noticiário da noite: Katie Couric, contratada por US$ 15 milhões anuais. Mas cuja liderança na audiência esvaiu-se em menos de três meses.


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