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O Reintegra foi-se, mas o câmbio ajuda

Klaus Kleber Há bons motivos para que o Banco Central (BC) deixe de intervir ou modere as suas intervenções no mercado de câmbio de agora e adiante. Depois de uma […]

04/06/18

Klaus Kleber

Há bons motivos para que o Banco Central (BC) deixe de intervir ou modere as suas intervenções no mercado de câmbio de agora e adiante. Depois de uma semana agitada, o dólar chegou a ser cotado na última sexta-feira a R$ 3,75 (venda). É possível que baixe um pouco nesta segunda-feira, mas mão parece insensato que o BC deixe o câmbio flutuar, se a taxa do dólar permanecer girando em torno de R$ 3,70.

Isso não só corrigiria a sobrevalorização do real, tão sensível no início deste ano, mas ajudaria bastante os exportadores de produtos manufaturados, que tiveram que amargar um pesado custo com a greve dos caminhoneiros, que não se traduziu apenas em atrasos de embarques, com risco de perder clientes, mas também na anulação de um importante incentivo.

No pacote de medidas para juntar recursos para poder compensar a Petrobrás por manter o preço do óleo diesel congelado por 60 dias, o governo, além de um corte indiscriminado de despesas, reduziu o Reintegra, pelo qual devolvia aos exportadores 2% do valor das vendas externas de manufaturados.

Reduziu é eufemismo, pois o governo praticamente eliminou o Reintegra, cuja taxa baixou para ridículos 0,1%. Isso não dá para nem para cobrir o custo burocrático para fazer jus ao benefício.

Ora, o governo só o fez porque o câmbio agora é considerado vantajoso para os exportadores de produtos industriais. As exportações de calçados, por exemplo, vêm se recuperando e os empresários do setor declaravam, em meados de abril, que poderiam avançar muito mais frente à concorrência chinesa, se a cotação do dólar alcançasse R$ 3,50.

A R$ 3,70, eles, como outros exportadores de bens industriais, podem competir no mercado internacional, mesmo sem o Reintegra. No caso das exportações de aço, agora sujeitas a cotas, a desvalorização do real nas últimas semanas poderia ter um efeito compensatório.

Assim, por ora, o saldo da balança comercial pode até aumentar. Os exportadores de commodities passaram a lucrar mais com uma cotação realista do dólar e as importações devem ficar mais caras e se reduzir, com certo efeito sobre a inflação, mas que não chegaria a ser desastroso.

Bem sabemos que há empresas endividadas em dólar, entre elas a Petrobrás, que estão arcando com maiores ônus em razão da desvalorização do real. Mas, como se viu, o governo vai bancar qualquer prejuízo que a estatal possa ter com o congelamento do preço do diesel.

O problema, naturalmente, é como sair dessa armadilha, daqui a dois meses, às vésperas das eleições presidenciais.


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