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O que assusta em Trump (e na Brexit) é a velocidade. Não as promessas

Leonardo Trevisan Na véspera da posse de Donald Trump na presidência dos EUA o mundo ficou tomado por outro tipo de curiosidade. Bem diferente da característica destes momentos. Por exemplo, […]

por Leonardo Trevisan
19/01/17

Leonardo Trevisan
Na véspera da posse de Donald Trump na presidência dos EUA o mundo ficou tomado por outro tipo de curiosidade. Bem diferente da característica destes momentos. Por exemplo, em Davos, no Fórum Econômico Mundial, o ponto comum de políticos, empresários, economistas, banqueiros não é a sensação de mudança com todos os riscos inerentes. Isso todo mundo sabe.

A questão que mais intriga é a velocidade dessa mudança. A lógica é simples: se as mudanças acontecerem de modo mais suave, de forma mais distribuída no tempo, os impactos serão menores. Não só em Davos, óbvio, mas especialmente lá, todos percebem que a vitória de um pensamento mais conservador em política e muito antiglobalização em economia está apenas começando.

O que se esperava é que a velocidade dessa mudança fosse algo controlada. Não é o que parece. Os primeiros sinais não foram de ritmo moderado na consolidação dessa vitória. O tom belicoso de Donald Trump – em todas as direções – foi só o aviso. O exercício prático dessa vitória ficou por conta da primeiro ministro britânico, Theresa May. O anúncio que ela fez anteontem sobre o formato que terá a Brexit é para não deixar qualquer dúvida sobre a velocidade escolhida para impor as mudanças no ciclo de globalização que o mundo vive desde o começo dos anos 90.

Quem exigia definições de Londres, sobre o ritmo da Brexit, já as encontrou. E não foram as mais agradáveis. Artigo do El País fez interessante classificação em 12 pontos do formato com que a Inglaterra pretende ativar o Artigo 50, que regula a saída do Tratado da União Europeia.

Primeiro, é a ostensiva declaração de May: o Reino Unido fala de uma posição de força. Custe o que custar, Londres quer de volta o “pleno controle”, ou seja, denuncia a jurisdição do Tribunal de Justiça Europeu. Em outras palavras, a livre circulação de capitais, mercadorias, serviços e pessoas (base da UE) terá o entendimento que o governo inglês quiser dar. Ponto!

E de forma imediata. A frase de May tira qualquer dúvida dos limites da negociação: “para o Reino Unido é preferível que hão haja qualquer acordo do que ocorra um mau acordo”. É neste contexto que Londres avisou: abre mão já do mercado único europeu (500 milhões de consumidores) porque quer resolver “o quanto antes possível” a questão dos direitos dos estrangeiros no seu território nos termos da legislação inglesa e não europeia. Isto é, Londres está disposta a pagar já, sem negociação, os custos de perder mercado para manter essa soberania anti europeia.

Na prática, May impôs condições que definem a não negociação da Brexit. Instantânea. Cabe a União Europeia só aceitar ou recusar. Sem muita conversa. O ritmo da Brexit será este. O artigo do El Pais mostra como os 12 pontos, incluindo o que será da Escócia e da Irlanda sem Europa, já estão definidos. Este artigo está no endereço:
http://internacional.elpais.com/internacional/2017/01/17/actualidad/1484670601_895879.html

É neste contexto que um dia antes de Theresa May ditar as regras de uma Brexit “feroz”, Donald Trump, definiu a OTAN (a aliança militar ocidental) como “obsoleta”, antecipou que outros países devem seguir o exemplo inglês e deixar o bloco europeu e, sem qualquer freio diplomático, disse que a chanceler alemã, Angela Merkel, cometeu “erro catastrófico” ao aceitar que um milhão de “ilegais” entrassem na Alemanha. Dois jornais conservadores europeus (Bild alemão e Times inglês) foram escolhidos para ouvir Trump afirmar: “para os EUA não tem nenhuma importância e não me interessa se os europeus estão unidos ou não”.

As mudanças antiglobalização terão um ritmo bem apressado. Motivo: deter, pela surpresa, qualquer reação do outro lado. A lógica dessa velocidade é a de criar o “fato consumado”. No caso da Brexit essa pressa tem a ver com inibir a reação do parlamento. Ontem, os parlamentares ingleses – inclusive do partido Conservador de May – queriam saber se a Casa será ouvida ou não para discutir a proposta de saída inglesa da União Europeia.

Tem mais. Em dezembro a Justiça inglesa deu razão a um grupo de cidadãos que reclamou o básico: foi o Parlamento que colocou o país na União Europeia, portanto, só ele a retira. Thereza May recorreu à Suprema Corte britânica. O resultado dessa decisão será divulgado em 24 de janeiro. Todos sabem que a Brexit não tem maioria no Parlamento, inclusive entre os conservadores. O motivo da pressa é esse: fazer valer o referendo antes que o eleitorado perceba bem o que a decisão significa economicamente.

Na verdade, nada é muito diferente na “pressa” de Trump. Matéria do Financial Times, assinada por Barney Jopson, publicada em 17/01, mostrou o grau de divergência da bancada dos Republicanos no Congresso quanto às ideias mais radicais do presidente eleito. O modo pouco ortodoxo de fazer declarações bombásticas , via twitter, visa derrubar ideias e movimentos nos quais os deputados e senadores republicanos trabalharam por meses.

A rejeição de Trump das propostas de reforma tributária dos republicanos é o ponto mais forte de discórdia entre o presidente e o Congresso. O artigo do FT mostra o quanto a ideia de Trump de “ajuste tributário na fronteira” prejudicaria , por exemplo, propostas de redução do imposto de renda, que os republicanos tanto prometeram aos eleitores. A violência das palavras de Trump e a pressa na execução de certas medidas radicais visa “avançar” rápido para dobrar essa resistência.

O mundo, principalmente quem está em Davos, percebeu bem o perigo dessa pressa. O jogo de criar “fatos consumados” para impor decisões nunca deu muito certo. Nem para os interesses da maioria das pessoas, muito menos para os negócios.

A pressa na imposição do pensamento conservador mais radical – em política e em economia – embutido na Brexit e na vitória de Trump, para ficar no começo da conversa (este ano teremos eleição na França, Alemanha, Holanda e possivelmente Itália), pode custar caro. Bem caro. Por isso a curiosidade com Trump não está nas mudanças prometidas, bem conhecidas, mas na velocidade delas. E com toda razão.


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