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O pensamento militar ressurge

Klaus Kleber Apesar do número de militares no primeiro e segundo escalões do governo já escolhidos pelo presidente eleito, não se pode dizer que o governo de Jair Bolsonaro será […]

02/12/18

Klaus Kleber

Apesar do número de militares no primeiro e segundo escalões do governo já escolhidos pelo presidente eleito, não se pode dizer que o governo de Jair Bolsonaro será um governo militar, marcado pelo autoritarismo do Executivo, com desprezo pelos poderes legislativo e judiciário, de acordo com o modelo 1964-1985. Mas se pode dizer, com segurança, que o “pensamento militar” está ressurgindo.

Tivemos na semana dois sinais disso. Primeiro, foi a recusa do governo de sediar no Brasil a próxima Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas (COP-23) e, quase simultaneamente, o anúncio do nome de um almirante reformado para chefiar o Ministério das Minas e Energia.

Bolsonaro disse que pretendia retirar o Brasil do Acordo de Paris sobre o Clima, mas depois voltou atrás, pelo menos em declarações públicas. Contudo, permitir a realização aqui da COP-23 seria demais para os militares. Como o futuro vice-presidente, general reformado Hamilton Mourão, deixou bastante claro o Brasil não pode aceitar o chamado Plano Triplo A, uma ideia que vem avançando nas COPs de criar um enorme corredor ecológico internacional de 200 milhões de hectares, partindo da cordilheira dos Andes, cortando a Amazônia e chegando ao oceano Atlântico.

Partes de outros países, como o Peru, o Equador, a Colômbia, a Venezuela, Guiana, o Suriname e a Guiana Francesa integrariam esse corredor, mais a maior parcela de longe do território previsto para consecução do Plano A pertence à Amazônia brasileira, cortando uma larga faixa dos Estados do Amazonas, Pará, Roraima Amapá.

Se para os brasileiros em geral, moradores ou não da região amazônica, o esquema é suspeito de interferência indevida em assuntos internos do País, para os militares, o tal corredor fere a soberania nacional e eles não admitem nem mesmo discuti-lo. Não é exagero prever que, se o Triplo A ganhar força, seja onde for que se reúna a COP-23, o governo brasileiro pode até abandonar o Acordo de Paris.

Já a escolha do almirante Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Jr. para chefiar o Ministério de Minas e Energia, anunciada por Bolsonaro na última semana, significa que a Usina de Angra III, cujas obras começaram em 1984 e estão hoje paralisadas, finalmente será completada. O almirante vinha cuidando os programas dos submarinos movidos a energia nuclear e é, segundo se informa, entusiasta dessa área.

Angra III, como outros projetos na área nuclear, foram concebidos durante o regime militar, mas este não é principal argumento para o término de suas obras. O problema é o que fazer com a obra, onde já foram enterrados R$ 7 bilhões. Para o desmonte, com segurança dos 58% da obra já concluídos, exigiria ouros R$ 12 bilhões, incluindo o pagamento de empréstimos. Para acabar a obra, o custo seria um pouquinho maior: R$ 17 bilhões.

O ministro-almirante terá bons argumentos para terminar a obra, além de seu valor estratégico, sob o ponto de vista de enriquecimento e produção de combustível nuclear. Calcula-se que 58% da obra já foram concluídos e a Eletrobrás arca com 10 milhões por ano para evitar que máquinas e equipamentos sejam deixados ao léu, o que importaria inclusive em grave risco.

O “x” da questão, naturalmente, está de onde tirar o dinheiro. A grana poderia vir da privatização de geradoras hidroelétricas, mas há setores do governo que são contra isso também. Os recursos terão de sair do Tesouro Nacional, a não ser que se aceite parceria em Angra III com empresas chinesas, russas e coreanas interessadas no projeto — o que impensável no próximo governo.

Pode-se prever aí um conflito do pensamento militar e o pensamento econômico expresso de Paulo Guedes.


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