X

O nevoeiro eleitoral depois do Carnaval

Klaus Kleber Enquanto esperávamos o elevador, um vizinho me perguntava se eu acreditava na candidatura de Michel Temer à reeleição. Disse ele que era difícil mesmo acreditar por motivos óbvios: […]

25/02/18

Klaus Kleber

Enquanto esperávamos o elevador, um vizinho me perguntava se eu acreditava na candidatura de Michel Temer à reeleição. Disse ele que era difícil mesmo acreditar por motivos óbvios: a baixíssima popularidade do presidente, os ressentimentos que leva muita gente ainda a gritar “Fora Temer” e sua idade (ele completa 78 anos em setembro). Mas, a seu favor, ponderou meu vizinho, o presidente tem a máquina do governo.

A intervenção no Rio pode ter um efeito demonstração do que o governo federal pode fazer, se quiser, mas o uso da máquina tem limitações. O presidente tem uma poderosa caneta, mas por iniciativa do seu próprio governo, foi imposto um teto nos gastos públicos e está previsto este ano um déficit primário da União não superior a R$ 159 bilhões. Qual a mágica que vão fazer para vencer esse obstáculo?

Fim da conversa de elevador. Na realidade, o fato político mais saliente depois do Carnaval não foi confirmação do ministro Henrique Meirelles de que está disposto a sair candidato à Presidência.  Isso já era esperado e o nome de Meirelles já figurava como opção nas pesquisas de opinião. O que assustou todo mundo, inclusive o MDB, foi a desenvoltura dos auxiliares mais próximos do Palácio do Planalto em passar a defender a reeleição de Temer, logo depois de anunciada a intervenção federal na área de segurança no Rio, jogando para escanteio a reforma da Previdência.

Se a intervenção tiver sucesso, o que é muito duvidoso, esse seria um mais trunfo para o atual presidente pleitear sua permanência no posto. Ele tem outras cartas na manga: em seu governo, a inflação baixou para 2,95% em 2017 deve permanecer baixa em 20018, a taxa básica de juros caiu para 6,75%, o desemprego começa a baixar e se prevê que a o PIB pode crescer até 3,5% este ano.

Certo, a reforma da Previdência falhou, mas isso prejudicaria mais a candidatura de Meirelles do que a do próprio residente do Jaburu, que fez o que pôde e pode voltar à carga, se reeleito.

E, quanto ao uso da máquina, já se fala que, com a demissão até o início da abril, daqueles ministros que serão candidatos nas eleições de outubro, os cargos vagos serão ocupados por gente de absoluta confiança da copa e da cozinha do Planalto.

Outro fator é “aridez”, para usar o termo do editorial da Folha de S. Paulo de domingo (25/2) no terreno intermediário entre Jair Bolsonaro e ex-presidente Lula. Com a impossibilidade de Lula sair candidato e com a desistência de Luciano Huck, esse espaço deveria ser ocupado pelo governador Geraldo Alckmin, prejudicado por um “crônico déficit de carisma”. Há outros disputantes no campo liberal-conversador, como Rodrigo Maia e Meirelles, mas, com a fragmentação no campo “liberal-conservador”, Temer, se for realmente candidato, teria condições e ir ao segundo turno, cabendo aos marqueteiros lhe dar uma aparência algo carismática.

Todo esse raciocínio é de um lado só e não leva em conta a possibilidade de uma candidatura de esquerda, que pode vir aí, a depender da retirada oficial de Lula. As conversações entre Fernando Haddad e Ciro Gomes, se prosperarem, podem dar mudar radicalmente o quadro eleitoral e, quem sabe, unir o campo dito liberal.

Enquanto permanece esse nevoeiro a Bolsa sobe e a cotação do dólar cai.


Todos os direitos reservados, 2018.