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O lugar mágico da emoção que acabou: a loja de discos

Claudia Bozzo O ritmo da revolução digital está encurtando o tempo de se sentir saudades. Os ciclos estão cada vez mais curtos. Embora saudando a chegada de coisas fantásticas como […]

20/10/13

Claudia Bozzo

O ritmo da revolução digital está encurtando o tempo de se sentir saudades. Os ciclos estão cada vez mais curtos. Embora saudando a chegada de coisas fantásticas como os smartphones, todos os Is, a possibilidade de baixar filmes, livros, documentos, há algumas coisas das quais não dá para deixar de sentir falta. Uma delas é a loja de discos.

São Paulo era um paraíso. Tínhamos a Breno Rossi, a Bruno Blois, a Hi-Fi, o Museu do Disco, o setor de música de algumas grandes livrarias, a Planet Music e aquelas lojinhas pequenas, algumas escondidas em galerias, com tudo que alguém poderia querer. Primeiro nos LPs, depois nos CDs. De um para outro a mudança não foi tão dolorosa.

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Fora a parte das capas – jamais foi bem resolvida nos CDs – convenhamos que não havia espaço para tanto Long Play, na casa de quem era mesmo do ramo.  Um metro de Frank Sinatra, afinal, não era lá tão difícil de completar. E os discos de Bach, Vivaldi, Corelli, Mahler, Mozarts, Verdi, Villa Lobos e Wagner, entre tantos outros? Com uma vantagem: muitos vinham em LPs em belíssimas caixas que incluíam o libreto, com o texto original e a tradução ao lado. Como era linda minha “Paixão Segundo Matheus”, de Bach, naquela caixa de lombada negra e aquele libreto fantástico, com letras em uma fonte legível?

Não, não tinha preço. Sentar e acompanhar uma música tão divina, lendo o libreto, num ritual que embalava e transportava cada pessoa para seu próprio mundo, num clima mágico. As companhias de discos continuam lançando os LPs, pois os verdadeiros apreciadores sabem que não existe nada como o gesto de tirar uma “bolacha” de dentro do plástico ou envelope de papel que a protege na capa e entregá-la aos cuidados de uma delicada agulha que extrairá o melhor daquele compositor. Ou cantor.

No Reino Unido, por exemplo, 2013 trouxe uma grande notícia para quem se amarra no bom, confiável e delicioso vinil (segundo os especialistas, reproduz exatamente o que foi gravado no estúdio, com limitações e interações no ambiente e menos manipulação). Este ano, as vendas de LPs entre os britânicos chegaram ao nível mais alto em dez anos, com mais de meio milhão de unidades. Um dos diretores British Phonographic Industry, animado com o volume de vendas disse “esse é o retorno dos LPs!”

E as capas? Verdadeiras obras de arte. Faz pouco tempo o Google dedicou um “doodle” – uma homenagem online – aos 93 anos de Saul Bass, falecido em 1996, que criou alguns dos mais fantásticos posters de filmes – e apresentação de créditos – que acabaram transformando-se em capas de trilhas sonoras. São deles os cartazes de “O Homem do Braço de Ouro”, “Psicose”, “Um Corpo que Cai”, “Os Bons Companheiros”, “Amor Sublime Amor”.

Quem jamais esquecerá as capas dos discos dos Beatles? Ou do Chico Buarque de Holanda ou de toda aquela turma da Bossa Nova? A elegância das capas da Elenco, em branco e preto, despojadas, sóbrias? Ou um LP triplo do Stevie Wonder, “A Vida Secreta das Plantas” com textos em Braille? E um Elvis com o grande rock star em seu traje dourado?

O filme “Velvet Goldmine”(1998) de Todd Haynes, com Jonathan Rhys Meyers, Ewan McGregor e Christian Bale, uma espécie de biografia de David Bowie, mostra a geração influenciada pelo “camaleão do rock” e quando Christian Bale, um dos fãs do cantor, compra o LP e leva para casa, é como se cada um de nós repetíssemos o gesto, na cerimônia de levá-lo pela primeira vez ao toca-discos.

E as lojas de discos? Templos, como a Tower Records, em Nova York, e que hoje em dia são consideradas “bad guys”, pois acabavam exercendo o papel de vilão: onde chegava uma, acabavam-se todas as pequenas lojas da redondeza, aquelas preciosidades cujos donos conheciam tudo. Mas, inocentes viajantes, íamos a essas grandes lojas buscar aquela Julie London que jamais chegaria aqui. A Mahalia Jackson para poucos, aquele Herbie Hancock ou Mel Tormé. Assim como as lojas da Virgin, em Londres e Paris, a primeira Loja Fnac em Paris! E aquela lojinha no meio de Ferrara, na Itália, com todos os cantores italianos interessantes, como o chiquérrimo Paolo Conti, de “Parole D’amore Scritte A Macchina”?

O prazer de esperar pelas liquidações na Breno Rossi e Bruno Blois, as lojas perto da Praça da República que tinham importados incríveis? A Hi-Fi tinha aquela promoção: você comprava um vale-disco para dar a amigos. Uma lojinha escondida em uma viela em Pinheiros abrigava preciosidades, assim como aquela da Rua Luis Coelho ou da galeria do Cine Gemini que hoje resiste em uma galeria na Augusta, onde encontrei discos do Goran Bregovic, o compositor que faz as trilhas dos filmes do Emir Kusturika.

Mas tudo isso é antiguidade. Agora dá para sentir saudades também das lojas de CDs! Estão acabando. Uns poucos heróis restam, mas os clientes mínguam. Não tem graça, para alguns, fazer download de música. Se os CDs resolveram mal a questão das capas, ficou muito chato não ter uma loja para ir procurar uma coisa e encontrar outras dez diferentes.

E quem diz isso não é ninguém com medo ou incapaz de lidar com as novas tecnologias: acabo de comprar a versão I-book de “Patriot of Persia: Muhammad Mossadegh and a Tragic Anglo-American Coup”, de Christopher de Bellaigue e baixei o livro no meu aplicativo Kobo, da Livraria Cultura. Gosto de ler no meu IPad, ouvindo pelo ITunes, a radio Classic FM de Londres.

Mas nada se compara ao prazer de ir a uma loja de discos. Como o canto das sereias que atraíram Ulisses, lembro-me das inúmeras vezes em que entrei em lojas em busca daquele som que invadia o espaço e nos levava. Ir nas tardes de domingo à Fnac era uma festa e um desastre para as finanças. Sem contar o Zé dos Discos, que vinha às redações, sempre sabendo qual o Serge Gainsburg ou Van Morrison que faltava na sua coleção!

Senti de forma mais acentuada a situação depois de sair do cinema onde fui assistir “O Quarteto”, filme dirigido por Dustin Hoffman, que mostra a montagem de um espetáculo numa casa de retiro para intérpretes aposentados de ópera. A vontade de ouvir qualquer coisa de Verdi, ainda no carro, antes de chegar em casa, foi uma frustração. Não havia em qualquer livraria aberta naquele domingo, uma sessão decente de música, e aí se inclui até a Livraria Cultura, que raramente nos deixa na mão. Pode ser que os CDs também ocupem muito espaço. Mas como é árido fazer download de música.

Vai passar, a saudade vai passar e como em todas as outras situações, vamos encontrar o ponto de acomodação. Mas isso não nos impede de sentir falta daquele delicioso exercício de selecionar o disco ou o CD, por sessão, por estado de espírito, por indicação… De lembrar de cada disco comprado. Aquele foi numa loja da São João, o outro num dia em que estava alegre, o outro para comemorar. Essa festa acabou. Mesmo.


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