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“O. J. Made in America”, sobre crime ocorrido há 22 anos, expõe as vísceras de um país

Claudia Bozzo O documentário “O.J. Made in America” (2016) apresentado pela ESPN, canal dedicado a esportes, sobre o ex-jogador norte-americano O. J. Simpson, passou quase sem ser notado, apesar da […]

10/07/16

Claudia Bozzo
O documentário “O.J. Made in America” (2016) apresentado pela ESPN, canal dedicado a esportes, sobre o ex-jogador norte-americano O. J. Simpson, passou quase sem ser notado, apesar da sua excepcional qualidade. E coincidiu, tristemente, com outro fato da vida real, que acaba de abalar os Estados Unidos, mais uma vez: o assassinato de cinco policiais brancos, no Texas, por um atirador negro, que cai como bomba bem no meio da corrida eleitoral à presidência do país.

Mesmo porque o documentário traz, em profundidade inesperada, os fatos que levaram à inacreditável absolvição do astro do futebol, pela morte de sua esposa Nicole e de um amigo da família, Ronald Goldman, em 12 de junho de 1994. Uma série da qual ainda se falará muito, pois está cotada até para um Oscar.

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O grande mérito do documentário, dirigido por Ezra Edelman, um jovem diretor e produtor de TV, é colocar o crime no contexto da época e montar um abrangente retrato dos Estados Unidos e suas paixões e idiossincrasias. A admiração sem limites pelo “vencedor” e o enorme fosso racial que separa brancos e negros, tanto quanto brancos e hispânicos, brancos e orientais, o ainda pela religião, com a atual onda contra muçulmanos, uma patologia que parece ser o eixo a nortear a campanha do candidato republicano, Donald Trump.

Dividida em cinco episódios, a apresentação do programa foi atropelada pela falta de fidelidade do canal, na Net, aos horários indicados na programação. Gravar a série foi uma verdadeira “tourada”. Imagine-se acompanhá-la ao vivo.

Mas valeu o sacrifício. Edelman primeiro traça um retrato da ascensão de O. J. à categoria de grande astro: o jogador forte, enérgico, determinado e dono de características excepcionais como esportista, na prestigiada liga NFL, construindo uma carreira excepcional. Para o público brasileiro a série é interessante por mostrar o quanto era poderosa a instituição “O. J. Simpson”, no início da carreira, casado com uma jovem negra, Marguerite.

Durante os 18 meses consumidos no processo de elaboração da Série, Edelman realizou 72 entrevistas, incluindo participantes da promotoria, da equipe de defesa (um “dream team” de advogados, como eram descritos na época), amigos de infância de Simpson, jurados, ex-detetives envolvidos no caso, ativistas de direitos humanos e da causa afro-americana, jornalistas e parentes das vítimas. Edelman tentou chegar a Simpson por meio de uma carta, jamais respondida, agora que ele cumpre, desde 2007, uma pena de 33 anos em Nevada, por acusação que o documentário esclarece. Também não conseguiu entrevistar a primeira esposa, Marguerite.

Distante do Brasil, embora noticiado amplamente, o episódio foi notícia no dia a dia dos norte-americanos. Aqui chegou pela CNN, que transmitiu ao vivo, a famosa fuga de O. J. no seu carro, um Bronco branco, pelas vias expressas de Los Angeles, ameaçando suicidar-se, depois de ter sido determinada sua prisão. E depois pela transmissão do julgamento, que teve a presença de câmeras de televisão, com audiência de 20 milhões de pessoas, e consumiu 372 dias.

Era uma cidade já conflagrada por episódios de racismo, da parte de policiais brancos. Aproximando-se do julgamento, o ataque a Rodney King, um taxista negro violentamente espancado pela polícia de Los Angeles que o havia detido sob a acusação de dirigir em alta velocidade em março de 1991 e a absolvição dos policiais envolvidos funcionou como gasolina sobre um incêndio. Los Angeles testemunhou violentos conflitos em 1992 e a cena, registrada em vídeo por uma testemunha, correu o mundo. Foram três dias de confrontos, incêndios, saques, depredações e uma onda de crimes que causaram 58 mortes, deixaram mais de 2800 feridos, destruíram 3.100 estabelecimentos comerciais e causaram prejuízos estimados em mais de US$ 1 bilhão.

Embora o que estivesse em julgamento fosse a morte brutal de Nicole e Ron, atingidos por facadas, o fator racial acabou sendo o protagonista do julgamento. Mesmo que O. J. Simpson, como faz questão de evidenciar o documentário, jamais tenha se identificado com os movimentos pela igualdade racial. E estes eram bem importantes na época, pois além da atuação de Martin Luther King, assassinado em 1968 e dos dos Panteras Negras, havia a participação de atletas como o recentemente falecido Muhammad Ali (na época ainda Cassius Clay) ou a atuação de Tommie Smith e John Carlos, que nas Olimpíadas de 1968, no México, levantaram o punho com uma luva negra (símbolo dos Panteras) ao receber suas medalhas no pódio. Foram expulsos da competição, mas a mensagem perdura. Um inesperado Pantera Negra, por exemplo, é revelado no último episódio da série.

O documentário registra todos os fatos, com rico acervo de vídeos da época, traçando um paralelo com a vida de O. J. Simpson, que casado com Nicole, vivia no bairro mais rico de Los Angeles, vizinho e amigo de brancos ricos e poderosos. Era garoto propaganda da rede Hertz, amigo pessoal do dono da empresa, além de atuar em filmes da série “Corra que a Polícia Vem Aí” e dezenas de outros. Tinha tudo: era belo, amado, rico, famoso, respeitado. Mas tudo perdeu


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