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O gentil gigante islandês, num filme de muitos talentos

Claudia Bozzo “Desajustados”, a infeliz tradução da coprodução Islândia- Dinamarca, “Virgin Mountain”, é mais uma comprovação de que “quem arrisca quase sempre petisca”. O filme passou na Mostra de Cinema […]

20/03/16

Claudia Bozzo
“Desajustados”, a infeliz tradução da coprodução Islândia- Dinamarca, “Virgin Mountain”, é mais uma comprovação de que “quem arrisca quase sempre petisca”. O filme passou na Mostra de Cinema de 2015 e integrou um belo pacote de filmes nórdicos daquela edição da mostra. Entra em cartaz na próxima semana. Pensando bem, quem apostaria na história de Fúsi – interpretado com brilho por Gunnar Jónsson – um quarentão ainda solteiro de hábitos bem limitados, que tem dificuldades até de viver com a mãe, e cuja principal distração é recriar cenários de batalhas em maquetes?

Às vezes a boa aposta de uma escolha do que ver está na origem do filme. Islândia? Outro bom exemplo do cinema islandês, ainda em cartaz no Reserva Cultural, o belo “A Ovelha Negra” sobre dois irmãos que não se falam há anos, mas são obrigados a enfrentar uma situação que afeta a ambos.

Mesmo a razão da escolha do título “Montanha Virgem,” é uma ficha que não cai de imediato. De qualquer forma, o filme, dirigido pelo jovem Dagur Kári, também roteirista, sem sentimentalismos ou saídas simplistas, vai conquistando aos poucos e mostra uma força interior tão grande quanto o próprio Fúsi, um grandalhão que trabalha no aeroporto, movimentando bagagens.

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Há uma espécie de ponto de virada em sua vida, quando ele ganha de presente do namorado da mãe uma série de aulas numa escola de dança. Impossível deixar de se encantar com Fúsi, pois Gunnar Jónsson é aquele tipo de ator descrito pelos norte-americanos como “larger than life”. Uma figura! Recebeu o prêmio de melhor ator no Tribeca Festival. “Desajustados” também recebeu os prêmios de melhor roteiro e melhor filme, no festival que é um dos mais importantes do circuito chamado “alternativo”.

Trabalhando num registro discreto, íntimo, o diretor Dagur Kári nos leva ao mundo de Fúsi, à sua rotina inalterável e mostra a “entrada” na vida, a decisão de passar a fazer parte do mundo e correr riscos emocionais. Abandonando a segurança de seu pequeno mundo e zona de conforto e segurança. É com extremo carinho que o diretor traça a nova rota de vida do antes solitário e atormentado por colegas, Fúsi, que acaba por se apaixonar nesse caminho.

Outro fator importante é a química existente entre os personagens de Fúzi e de Sjofn (a atriz Ilmur Kristjansdottir). Tão diferentes, ao decidirem mesclar suas vidas.

O ritmo desse roteiro é delicado e sensível, esbanjando talento. Como é bom assistir um filme tão bem escrito, dirigido e interpretado. É um inspirado poema na elegância e sensibilidade de sua narrativa e densidade dos personagens.


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