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O genocídio armênio, pelas lentes de Robert Guédiguian

Claudia Bozzo Um século já se passou e entre as muitas feridas ainda abertas, desde o fim da Primeira Grande Guerra, a situação da Armênia é agravada pela resistência de […]

24/04/16

Claudia Bozzo
Um século já se passou e entre as muitas feridas ainda abertas, desde o fim da Primeira Grande Guerra, a situação da Armênia é agravada pela resistência de os países mais poderosos admitirem o genocídio dos armênios, praticado pelos turcos a partir do dia 24 de abril de 1915. Famílias inteiras foram tiradas de suas casas, seus bens tomados e deportados para um futuro incerto através do deserto da Síria. Um milhão e meio de armênios foram mortos. E até hoje, potências como Estados Unidos, Reino Unido e muitas outras, recusam-se a pronunciar a palavra “genocídio”. Os turcos continuam negando que ele sequer tenha existido.

“Uma História de Loucura”, filme de Robert Guédiguian, o engajado diretor de ascendência armênia, como mostra o nome, filho de um estivador e nascido em Marselha, derruba cada uma das pedras do muro de mentiras montado para esconder esse ato de barbárie. Ela aconteceu depois da 1ª Guerra, quando o Império Otomano uniu-se à Alemanha e ambos, derrotados, voltaram-se contra minorias, como no caso os armênios.

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O fato de o papa Francisco referir-se ao ocorrido com todas as letras e pingos nos is, em abril de 2015, data em que a deportação e o massacre, que muitos chamam mesmo de holocausto, completou 100 anos, irritou as autoridades turcas, que chegaram a retirar seu embaixador no Vaticano. “O caminho da Igreja é o da franqueza”, disse o papa argentino. “Não podemos silenciar o que vimos e ouvimos”.

O filme de Guédiguian – que sobre o mesmo tema já fez “Armênia” (2006) – é didático e trata, além da loucura do extermínio de seres humanos, de um tema controverso: qual a validade de se recorrer à violência como forma de chamar atenção para a violência que vitimou tantos armênios?

A história começa em preto e branco, com um assassinato em Berlim, em 1921. Considerado principal responsável pelo genocídio, o turco Taalat Pacha foi executado em plena rua pelo armênio Soghomon Thelirian, cuja família havia sido exterminada ao ser obrigada a partir. Durante o processo, ele conta que fora sua mãe, morta na sua frente, que o levara a matar Pacha, ao aparecer nos seus sonhos. O juiz alemão faz perguntas muito precisas: como foi que tudo aconteceu, onde estava seu pai, e os outros? O júri, diante do testemunho de Thelirian, o absolve e uma Alemanha que mais tarde teria Hitler e suas campanhas de extermínio de judeus e dissidentes políticos, conclui que aquela barbárie era inadmissível.

Ele se torna um símbolo para os armênios em sua diáspora e os movimentos terroristas retornam na década de 1970/80. É ai que a trama vai se adensando.

Aram (Syrus Shahidi), um jovem de Marselha, cuja avó mantém vivo e transmite à família o rancor pela morte da família e o desejo de voltar para sua terra, adere ao movimento terrorista e participa de um atentado em Paris, que vitima o embaixador turco. Mas também causa um ‘dano colateral’: fere gravemente um jovem estudante de Medicina, Gilles Tessier (Grégoire Leprince-Ringuet). Em fuga, com a consciência pesada, Aram foge para o Líbano, onde seu dia a dia é aprimorar-se como guerreiro, unindo-se ao exército de libertação da Armênia em Beirute.

Guédiguian traz um retrato daquele grupo, onde militantes da ETA, do IRA e de outras facções partilham expertise em atentados e ações terroristas nos anos 1980. Ariane Ascaride, esposa de Guédiguian, é Anouch, a mãe de Aram, e Simon Abkarian é Hovannes, o pai, acusado pelo filho de omisso, por não enfrentar os policiais que interrompem uma missa pela memória do genocídio, em uma igreja da comunidade armênia de Marselha.

Já abordado em vários outros filmes, incluindo um dos irmãos Taviani, o genocídio é o tema de um documentário apresentado pela TV5, “Le Génocide Arménien, 100 Ans de Solitude”, que entrevista o cantor Charles Aznavour, de origem armênia, para o qual é importante saber que pelo menos metade dos países do mundo admitem a existência do genocídio. Pode ser que uma busca pelo YouTube localize o documentário.

Já o filme, baseado em livro autobiográfico de José Antonio Gurriaran, “La Bomba”, atinge uma densidade que é comum aos filmes de Guédiguian, o mesmo cineasta de “A Cidade Está Tranquila” (2000), “As Neves do Kilimanjaro” (2011), “O Fio de Ariane” (2014). E ele continua em ação: está em fase de pós produção de duas novas obras,“Bravo. Virtuoso” (com participação de França, Bélgica e Armênia) e “O Jovem Karl Marx” que o mostrará aos 26 anos, em companhia da esposa seguindo para o exílio em Paris, quando encontra Engels, numa coprodução franco-belga-alemã.


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