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O formidável talento que a França reconhece nas mulheres

Claudia Bozzo Catherine Deneuve, Juliette Binoche, Nicole Garcia e Virginie Efira, são grandes exemplos do talento feminino no cinema francês – à frente ou por trás das câmeras, na direção […]

15/09/19

Claudia Bozzo

Catherine Deneuve, Juliette Binoche, Nicole Garcia e Virginie Efira, são grandes exemplos do talento feminino no cinema francês – à frente ou por trás das câmeras, na direção – que estão em cartaz no momento em São Paulo. Elas brilham em “Adeus à Noite”; “Quem Você Pensa que eu Sou?” e “Um Amor Impossível”.

Na mesma trilha das grandes Jeanne Moreau, Simone Signoret, Danielle Darrieux, Fanny Ardant, Marion Cotillard, Ariane Ascaride, Isabelle Huppert, Emmanuelle Riva, Brigitte Bardot, Agnés Varda Nathalie Baye e tantas, tantas outras mulheres de talento, elas são a comprovação do valor que os franceses dão às suas atrizes e diretoras, desde sempre. Não é um fenômeno novo, nem foi preciso qualquer movimento de reivindicação para conquistar o merecido destaque. Só talento… como se isso fosse pouco.

Catherine Deneuve, aos 75 anos, acha a coisa mais natural do mundo interpretar uma avó, mesmo com toda a sua beleza, pois não é nenhuma Joan Collins nem precisa de artifícios para brilhar. E tem muitos papeis à sua espera, muito mais competência para mostrar. Em “Adeus à Noite” (2019), mais uma de suas parcerias com o diretor André Techiné, que a dirigiu, por oito vezes, duas delas em companhia de Daniel Auteil, como em “Os Ladrões” (1996), “Minha Estação Preferida” (1993) ou com Gerard Depardieu em “Tempos que Mudam” (2004) .

Em “Adeus à Noite” sua atuação é comovente, como Muriel, fazendeira que planta cerejas e cria cavalos e recebe a rara visita do neto Alex. Ele chega na primavera, quando as cerejeiras florescem e não dá grandes explicações sobre sua vida, seus planos. Mas aos poucos ficamos sabendo que ele se converteu ao islamismo e tem como meta unir-se aos combatentes do Estado Islâmico. Muriel veio da Argélia e é às suas origens que o neto quer retornar, como tantos jovens de uma geração que não se encaixaram – ou foram excluídos – pela sociedade.

Um fato que os jornais noticiam com frequência, pois há uma grande quantidade de mulheres e jovens europeus nos campos de refugiados na Síria, por exemplo, e que constituem um grande problema para seus países de origem, que não sabem o que fazer com eles. No cinema, outros filmes trataram do tema, como o francês “Os Cowboys” (2015) ou filmes da Bélgica e outros da França e da Grã-Bretanha.

A personagem de Catherine Deneuve enfrenta o difícil dilema de salvar o neto e não perder seu afeto. Techiné acerta no roteiro, mostrando o denso drama que une aqueles seres e seus sofrimentos profundos. E Deneuve está comovente, mostrando uma fragilidade que não é a característica de sua personagem, mas que aflora diante da dor.

Também digno de nota é o filme que une Juliette Binoche, que em “Quem Você Pensa que eu Sou” (2019), contracena com a brilhante Nicole Garcia, atriz, roteirista e diretora. Binoche interpreta Claire, uma professora universitária de seus 50 anos, em tratamento com a psiquiatra Catherine, papel de Nicole Garcia, que substitui o analista anterior de Claire.

As duas mulheres estabelecem uma colaboração intensa e o inteligente roteiro faz com que a gente chegue a detestar Claire, que cria um falso perfil no Facebook para tentar conquistar um rapaz muitos anos mais novo. Mas aos poucos vamos, como num processo terapêutico, mergulhando no drama que move a personagem. Há um momento em que a “ficha cai” e compreendemos tanta elucubração.

E “Um Amor Impossível” (2018), apesar do infeliz título que é só uma tradução do francês Un amour impossible, traz a bela e jovem Virginie Efira, embora belga, é no cinema francês que ela atua, é a mesma atriz que interpreta uma professora de nado sincronizado masculino em “Um Banho de Vida” (2018), em exibição no Netflix. O amor impossível, dirigido por uma mulher, Catherine Corsini, conta o difícil relacionamento de uma mãe solteira e sua filha, com esporádicas participações do homem que ela tanto amou, mas que não se casou com ela pela diferença social entre eles. Se rica fosse, isso não teria sido “impossível”.

Com um nome que nada promete, o filme surpreende, pela consistência e densidade dos personagens e de suas histórias. Todos esses três são típicos filmes franceses, que por sorte, acabam quando terminam. Mesmo porque a tendência de encerrar com um final “em aberto” acaba afastando muita gente de filmes franceses, o que é uma pena. 


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