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O filme é bom. A realidade não.

Claudia Bozzo Ir ao cinema é sempre bom. Por pior que seja o filme – algo do qual dá para escapar, recorrendo a boas fontes de informação – sempre sobra […]

05/08/19

Claudia Bozzo

Ir ao cinema é sempre bom. Por pior que seja o filme – algo do qual dá para escapar, recorrendo a boas fontes de informação – sempre sobra alguma coisa boa. O que é complicado é quando a realidade “gruda” no tema do filme. Foi o caso ontem. Ouvindo recomendações de amigos e leitura de artigos colocaram “Atentado ao Hotel Taj Mahal” no roteiro, mesmo porque os horários de outros filmes que parecem atraentes não combinavam com minha programação para depois do cinema.

Foi chocante ver, nas notícias pelo celular, ao sair da sessão, que em apenas treze horas, dois atentados nos Estados Unidos em Dayton, Ohio (num supermercado) e em El Paso, Texas (em um shopping center), causaram a morte de 29 pessoas. Nos dois ataques, tão reais quanto o retratado no filme, que aconteceu em 20 de novembro de 2008 em Mumbai (a capital financeira da Índia, antes chamada Bombaim) o número de mortos foi relativamente menor, assim como era o de agressores. Na Índia, ocorreram 12 tentados sincronizados, levados adiante por um grupo de 50 a 60 terroristas, que atacaram 10 locais e atiraram indiscriminadamente contra pessoas em estações de trens, cafés, cinemas e hotéis, deixando um rastro de 195 mortos (22 estrangeiros) e 327 feridos.

A motivação deles era a religião. Foi um ataque de muçulmanos contra o que chamavam de expropriação e roubo dos bens que pertenceram aos pais, avós e parentes. Mesmo que o ataque tenha visado tantos lugares, o alvo principal era um dos grandes marcos da cidade, o Hotel Taj Mahal. Segundo o diretor Anthony Maras, o Taj é um símbolo importante da Índia, e foi o primeiro lugar no país a ter energia elétrica. Foi inaugurado em 1903.

Os atentados nos Estados Unidos, que as polícias classificaram como “atentados políticos domésticos” foram realizados por apenas duas pessoas, seguindo o mesmo roteiro de tantos outros no país: homens jovens, com armamentos pesados dispararam contra os frequentadores dos dois locais até serem abatidos ou a munição acabar. Os fatos ainda não estão bem claros, nem as motivações. Fala-se em supremacistas brancos. Mas o que impera é a facilidade de acesso a armas.

Os roteiristas de “Atentado ao Hotel Taj Mahal” fizeram um extenso levantamento do acontecido, mostrando a angústia e o medo ao qual foram submetidas as vítimas. E ao mesmo tempo, revela a condução dos assassinatos, com os atiradores sendo orientados por uma pessoa a partir de um celular, com palavras de ordem e de engajamento. Pelo que se fica sabendo, ninguém foi responsabilizado pelo massacre. O que tem destaque é a atuação dos funcionários do hotel, reconstituição feita a partir de pesquisas do diretor e roteiristas, que conseguiram trazer o que sobrou de humano nas pessoas ao filme, com excelentes atores, como Dev Patel, o jovenzinho de “Quem Quer ser um Milionário”, que vem se consolidando como ator, em papéis maduros e já com uma segurança de veterano. Há outros atores conhecidos, como Armie Hammer, o Oliver de “Me Chame pelo Seu Nome” (2017) ou o britânico Jason Isaacs. É um filme bem realizado, com uma estrutura narrativa sólida e que não se distancias dos fatos. O que entristece é o lamentável paralelo que mantém com outros eventos. Tanto dos últimos dias, como dos últimos anos e ao que tudo indica, sem previsão de fim, seja em que canto do mundo for.


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