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O filme é argentino? Garantia de qualidade

Claudia Bozzo Mais uma vez os argentinos concorrem ao Oscar de filme estrangeiro – depois do sucesso no lançamento de “Relatos Selvagens” em maio de 2014, no Festival de Cannes. […]

14/12/14

Claudia Bozzo

Mais uma vez os argentinos concorrem ao Oscar de filme estrangeiro – depois do sucesso no lançamento de “Relatos Selvagens” em maio de 2014, no Festival de Cannes. O segredo desse sucesso é simples: talento, tanto dos atores quanto dos roteiristas, boas e simples histórias, e importante: nada de muletas como efeitos especiais ou qualquer tipo de “grandiosidade”.

Esse talento pode ser comprovado nas últimas semanas, em exibição em São Paulo, com três dos melhores da safra argentina: além de “Relatos”, “Sétimo” e “Filha Distante”. Os dois primeiros com Ricardo Darin, sempre corretíssimo e o último do diretor Carlos Sorin, o mesmo de “Histórias Mínimas” e “O Cachorro”.

Difícil escolher em “Relatos Selvagens” a melhor das seis histórias que formam um painel de pessoas que, diante de situações limite, mostram sua fragilidade, humanidade e capacidade de não mais “engolir sapos”. O filme teve uma das maiores bilheterias do cinema argentino e custando US$ 3,3 milhões já arrecadou, até agora, US$ 23,9 milhões.Captura de Tela 2014-12-14 às 13.05.33

Co-produção que teve a presença da produtora de Almodovar, El Deseo e foi visto por cerca de três milhões de pessoas desde seu lançamento no próprio país, em agosto. Foi apresentado em 15 festivais em todo o mundo – em São Paulo abriu a Mostra de Cinema deste ano – e recebeu as melhores críticas.

Cada pessoa que o assistiu tem preferência por um episódio diferente, e isso mostra o quanto ele é universal, sendo extremamente argentino. O diretor é Damián Szifron, de 39 anos, que em entrevistas aqui em São Paulo, na abertura da Mostra, disse não temer o julgamento do público, pois ele também é público. Falou ainda sobre a importância de Darin: “O Ricardo é uma espécie de embaixador da Argentina. Ele tem uma personalidade contagiosa e gera no outro o respeito. Tem uma mescla de bondade e inteligência. É uma pessoa muito agradável de se trabalhar. Você entende o sucesso que ele atingiu assim que o conhece.”

Ainda com poucos filmes no currículo, Szifron, que escreveu o roteiro dos seis episódios, também participou da montagem do filme. São história de fúria, emoções extremadas, e sempre, muito humanas, possíveis.

No elenco, Além de Darin, Há atores de primeira grandeza, como Dario Grandinetti (de “Fale com Ela”), Leonardo Sbaraglia (que atuou na série “Epitáfios”, exibida pela HBO e em “O que os Homens Falam”, visto recentemente em São Paulo. Não confundir com cinema argentino – esse é espanhol.). Sbaraglia está também em “O Crítico”, com estreia prometida para esta semana no Belas Artes.

O problema de se falar de um filme é estragar o prazer de quem vai vê-lo, revelando indiscrições (os famosos “spoliers”). Fui vítima disso várias vezes, mais recentemente quando soube da morte de um dos personagens de “Downton Abbey”, ao assistir um programa da BBC. Razão pela qual pouco leio sobre um filme antes de assistir. O critério de escolha varia. Pode ser pelo diretor, pelo país de origem, pelos atores, ou tema. E “Relato Selvagens” preenche todas as opções.

É uma irreverente comédia do mais fino humor negro, e mesmo diante das situações mais dramáticas há o inusitado que traz o riso, talvez até como forma de liberar a tensão construída cuidadosamente pelo roteiro impecável. Um talento reservado a poucos, essa facilidade de nos levar ao mais profundo amargor e de lá sair com um sorriso. Mais uma lição argentina de talento.

Ah, se eles conseguissem administrar o país com o talento de seus escritores, cineastas, arquitetos, atores…


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