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O esplendor de uma última sessão de cinema

Dois cinemas fizeram história nas telas: o Cine Royal no filme de Peter Bogdanovich, “A Última Sessão de Cinema” (1971) e o Cine Splendor (1989) em “Splendor” (1989) de Ettore […]

07/05/18

Dois cinemas fizeram história nas telas: o Cine Royal no filme de Peter
Bogdanovich, “A Última Sessão de Cinema” (1971) e o Cine Splendor (1989) em
“Splendor” (1989) de Ettore Scola. São duas histórias, de dois grandes
diretores, sobre o fim de cinemas em pequenas cidades por falta de
espectadores.

São as obras que veem à lembrança quando uma preciosidade como o filme
italiano de Jonas Carpignano “Ciganos de Ciambra” (2017), tem pouco mais de
uma dúzia de espectadores num final de tarde de sábado e poucos mais na
próxima sessão, em um imenso Cinearte. Cinemas vazios são uma realidade. Há
uma ou duas semanas, em uma sessão do Frei Caneca, o marido virou-se para a
esposa e comentou; “Pouca gente no cinema, não? Será que é por causa do
Netflix?” Boa pergunta.

E naquela mesma semana, em todos os noticiários, festejava-se que
“Vingadores Guerra Infinita” (2017) tornara-se, no final de semana ?o
maior sucesso de todos os tempos, faturando cerca de US$ 250 milhões,
deixando para trás “Star Wars: O Despertar da Força” que em 2015 havia
arrecadado US$ 248 milhões nos Estados Unidos.

Então, não é bem o cinema que está prestes a exalar seu último suspiro. É o
bom cinema.

Ainda há algumas ilhas de excelência em São Paulo, tais como o Reserva
Cultural, Caixa Belas Artes, CineSala em Pinheiros, os Espaços Itaú. Nos
outros o que domina mesmo são os vingadores, os super-heróis, os quadrinhos
que saltaram para as telas.

E não é implicância com o cinema norte-americano não. Há pouco tempo o
jornal britânico The Guardian pediu a vários de seus colaboradores que
escrevessem sobre qual a década que para eles foi a melhor em filmes. Pois
não é que, por exemplo, nas décadas de 1970 e 1980, a maioria dos bons
filmes vinham de Hollywood, muitos deles entre os melhores já realizados. Nos
anos 70 vieram “Chinatown”, “Operação França” “Taxi Driver”, “O Poderoso
Chefão” (I e II), “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Nashville”, “Um dia de
Cão”, “Tubarão” e “Guerra nas Estrelas”, entre outros. Nos 80 tivemos
“Tootsie”, “Como Eliminar seu Chefe”, “Trocando as Bolas”, “De Volta para o
Futuro”, “Laços de Ternura”, e muito mais bons filmes. Sem contar os
europeus da época, em meio à explosão godardiana que gerou a Nouvelle Vague
e o derramado talento italiano.

De qualquer forma, é torcer para que Bognadovich erre de novo. Pois não foi
ele quem disse que “todos os bons filmes já foram feitos”?

Pois “Ciganos de Ciambra” está aí para mostrar que as novas linguagens
existem e a criatividade vai sobreviver. O filme de Carpignano, premiado na
Quinzena de Realizadores do Festival de Cannes em 2017, acompanha o
amadurecimento do adolescente Pio Amato e seu rito de passagem para a vida
adulta, na Calábria, quando começa a ser aceito como um dos homens da
família de ciganos. Antes, era apenas “cai fora”, “não é com você”. No
final do filme, uma surpresa: todos atuam com seus nomes reais: toda a
família Amato está lá e sabe-se que tudo tem muito a ver com a vida real
deles. A divisão que há entre todos esses personagens à margem da sociedade
é um ponto central da vida. Eles se dividem entre “ciganos”, “africanos”,
“italianos”.

Todos falando um dialeto quase que incompreensível, com uma ou outra
palavra em italiano. O analfabetismo reina entre eles, assim como a
delinquência. O filme tem a saudável participação de Martin Scorcese e
Rodrigo Teixeira (carioca, radicado em São Paulo e um dos produtores de “O
Cheiro do Ralo” e outros 20 projetos) como produtores executivos. Mas o
diretor cavou a humanidade que se sobrepõe às difíceis condições de vida,
considerando-se ainda as “obrigatória” concessões feitas em questões como
honra, amizade e afeto, em nome da sobrevivência.

Tomara que o cinema não acabe, seja pela televisão, pelo elevadíssimo custo
dos ingressos, seja pela falta de interesse do público pelos filmes mais
“cabeça”. Mas sabemos que as tecnologias devoram tudo que fica à sua
frente. O sistema de streaming Netflix, por exemplo, insiste em ser
recebido em Cannes. Muitos cineastas são contra. Uma briga para se
acompanhar.


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