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O cinema, tentando compreender a gênese de atentados

Claudia Bozzo O The Wall Street Journal de 29 de maio passado publicou uma reportagem sobre forças especiais da França que buscam no Iraque militantes franceses que lutam pelo Estado […]

04/06/17

Claudia Bozzo
O The Wall Street Journal de 29 de maio passado publicou uma reportagem sobre forças especiais da França que buscam no Iraque militantes franceses que lutam pelo Estado Islâmico. A proposta, segundo o jornal, é caçar e matar franceses que tenham alcançado postos de comando na organização e como fontes são citados oficiais iraquianos e franceses, na ativa ou não.

As forças especiais forneceram aos soldados iraquianos que atuam no setor de contraterrorismo os nomes, dossiês e fotos de cerca de 30 homens identificados como “alvos de elevado valor”. Até agora, um número não revelado de cidadãos franceses já foram mortos por essas forças.

Essa realidade não escapou ao cinema. Além do filme exibido pelo Netflix (“Decisão de Risco”, 2015) com Helen Mirren no papel principal, que mostra a caçada a uma inglesa que aderiu aos grupos terroristas e o uso de drones nessa guerra muito particular, há dois filmes franceses que se destacam entre outros, sobre o tema. Um deles é “Os Cowboys” (2015), inspirado em “Rastros de Ódio” (1956). Nele, John Wayne é um veterano da Guerra Civil, que procura uma jovem, sequestrada por comanches (Natalie Wood no papel de Debbie).

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Em “Os Cowboys” quem desaparece é a jovem Kelly, que frequentava com o pai e o irmão os bailes onde se dançava a quadrilha bem no estilo americano.

De um dia para outro Kelly some e o pai, Alain, interpretado pelo excelente François Damiens (está nas telas no momento com o filme “Más Notícias para o Sr. Mars”, 2016) começa uma busca de anos e anos, que depois recebe o reforço de seu filho apelidado “Kid” (Finnegan Oldfield) e aos poucos vai descobrindo que ela se envolvera com um rapaz de origem muçulmana.

O filho vai bem longe em sua obstinada procura pela irmã e acaba recebendo a colaboração de uma espécie de mercenário norte-americano, com o ator John C. Reilly no papel. O que move tanto pai quanto filho é a incansável necessidade de saber o motivo do desaparecimento, e a tentativa de trazer a jovem de volta. É bom ficar de olho, pois deve ser exibido ou na TV a cabo ou no Netflix.

Esse é o primeiro filme dirigido pelo talentoso Thomas Bidegain, que já mostrara sua sensibilidade no premiado roteiro de “O Profeta” (2009), acompanhando o aprendizado no crime de um jovem árabe, na prisão. São dele também os roteiros de “Ferrugem e Osso” (2012) e “Dheepan: O Refúgio” (2015), todos com exibição nos cinemas paulistanos.
 
Outra obra, que ainda pode ter sua chance nas telas paulistanas, foi apresentada na Mostra de Cinema de 2016, “O Caminho Para Istambul”, dirigida por Rachid Bouchareb, diretor e roteirista de “Dias de Glória” (2006) e “London River- Destinos Cruzados” (2009), entre outros.

Feito para a TV, o filme tem uma qualidade comum aos filmes de Bouchareb: sensibilidade e poucas concessões. Conta a história de Elisabeth, uma cidadã belga, que recebe da polícia a notificação de que sua filha Elodie, de 19 anos, juntara-se ao Estados Islâmico e estava em algum lugar entre o Iraque e a Síria.

A mãe, como o pai de “Os Cowboys” não compreende as motivações da filha e literalmente move montanhas para encontrá-la. Vai para as zonas de guerra. Passa dias na fronteira da Síria, tentando entrar, mesmo que esta esteja fechada para qualquer pessoa, ainda mais um europeu.

Nesses filmes e em outros sobre o mesmo tema, a preocupação principal é saber por que os jovens europeus estão trilhando o caminho do terror em uma guerra que não parece ser deles. A constante é a adesão aos valores dos grupos aos quais eles  pertencem e a necessidade de integrar-se com os “irmãos”.

Na verdade o cinema só reflete a perplexidade dos pais e mães e de toda sociedade envolvida no drama. Mesmo porque os atentados continuam a levar o caos e o pânico às cidades europeias, como Londres, mais uma vez atingida no sábado (3/6/17) por mais um desses ataques.


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