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“Nebraska” mira e acerta a jugular dos Estados Unidos

Claudia Bozzo “É que ele acredita no que as pessoas lhe dizem”, explica em certo ponto do filme o filho de Woody Grant, o idoso de “Nebraska” veterano da Guerra […]

16/03/14

Claudia Bozzo

“É que ele acredita no que as pessoas lhe dizem”, explica em certo ponto do filme o filho de Woody Grant, o idoso de “Nebraska” veterano da Guerra da Coreia e ex-mecânico, interpretado pelo grande ator Bruce Dern. “Isso é ruim”, responde a mulher a quem é dada a explicação.

É em torno dessa crença – em uma carta enviada por uma editora, dizendo-lhe que ele terá direito a um prêmio de um milhão de dólares – que o diretor Alexander Payne, agarrando os Estados Unidos pela jugular, traz um retrato da vida no interior do país, durante uma das mais severas recessões já vistas, e mostra as relações de família e amigos com o idoso, e sua presumível fortuna.

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Alexander Payne, que é de Nebraska, é o mesmo diretor do também road movie “Sideways, Entre umas e Outras”, de 2004, do melancólico “As Confissões de Schmidt”, de 2002, com Jack Nickolson e mais recentemente de “Os Descendentes”, com George Clooney, de 2011, sobre um pai de família às voltas com os filhos após a morte da esposa e uma herança, no Havaí. Payne, fã confesso dos filmes de Chaplin, Kurosawa e Buñuel, optou pelo preto e branco em “Nebraska”, com um resultado muito bem sucedido, criando uma estética que parece acentuar a noção de declínio, desilusão e falta de perspectivas. E ao mesmo tempo passa uma noção de poesia naquelas paisagens desoladas, nos cartazes arruinados de beira de estrada, oferecendo empréstimos para compra de imóveis.

Desistindo de lutar contra a ideia do pai, de ir atrás de uma promessa ilusória, um de seus filhos, vendedor de aparelhos de som, resolve levá-lo de Montana até Lincoln, em Nebraska, para fazer-lhe a vontade. O veterano Bruce Dern está mesmo fantástico no papel de Woody, uma figura um tanto desligada, um tanto irascível, com uma única ideia em mente: receber seu milhão de dólares. O que vai fazer com o dinheiro? A pergunta só aparece lá pelo final do filme e mostra o quanto aquele idoso está longe dos personagens de “O Lobo de Wall Street”  mas ao mesmo tempo perto, por se tratar da “alma” americana e o valor que o país atribui ao dinheiro.

O filme acaba sendo uma viagem à história da família, pois no caminho para Lincoln, pai e filho param na casa de um dos irmãos de seu pai, unindo-se depois à mãe e ao irmão, que chegam de ônibus para acompanhá-los e reencontrar a família. Uma relação feita de longos silêncios em torno de um aparelho de TV ou breves diálogos sobre carros ou distâncias. As mulheres do filme parecem ter mantido uma noção mais concreta de realidade, seja com a disposição para falar, comentar coisas sobre o passado, sobre pessoas da família ou conhecidos.

O diretor Payne mostra muito carinho por essas pessoas, pois segundo comentou em entrevista, eles teem a mesma idade de seus pais, e o filme é bastante próximo de sua própria vida. Ele conta em outra entrevista que fez uma viagem de Los Angeles a Omaha em três dias, e gostou tanto que teria levado uma semana para fazê-la, se não estivesse transportando no carro, um gato diabético.

Payne sempre quis para o papel de Woody um ator que se parecesse com Bruce Dern. No filme “Ruth em Questão”, de 1996, ele dirigiu Laura Dern, filha do ator, que interpreta uma mulher que se vê no papel de precisar defender o aborto. Pois não gostou de ator nenhum e chamou o próprio Dern, que acabou sendo indicado para o Oscar pelo filme. Dern, ícone dos anos 1960 e 1970, afirmou em uma entrevista que foi ótimo trabalhar com Payne, pois “a cada dia eu ia para o trabalho sabendo que ele ia pedir para se fazer algo que ainda não tinha sido feito.”

De diretores Bruce Dern, de 77 anos, entende um bocado. Sua carreira de mais de 80 filmes começou lá pelos anos 1960, com “Rio Violento”, de Elia Kazan, participação não creditada. Depois trabalhou com Alfred Hitchcock, Sidney Pollack,  Bob Rafelson, Roger Corman, fez Tom Buchanam em “O Grande Gatsby” de Coppola,  foi o inesquecível marido de Jane Fonda em “Amargo Regresso” de Hal Ashby, de 1978 e outros filmes notáveis. Um dos últimos dos quais participou foi “Django Livre”, de Tarantino.

“Nebraska” é um grande filme, sem dúvida. Faz um retrato impiedoso dos valores americanos, e põe como protagonista um verdadeiro “loser”, cercado de outros na mesma situação e de um vácuo espiritual e cultural que impressiona. Se foi exatamente essa a intenção de Payne, não se sabe. Mas pelo seu currículo como cineasta, dá para ver que sua sensibilidade e suas preferências como diretor são ricas. Assim com suas influências. É até interessante: quando um diretor de outra nacionalidade começa a fazer muito sucesso, os norte-americanos, com seus orçamentos de fazer cair o queixo, costumam conquistá-los para Hollywood. Mas o inverso raramente acontece.


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