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Na era Trump, House of Cards precisa ser reescrita?

Leonardo Trevisan Donald Trump provavelmente assistiu House of Cards. A dúvida é se entendeu a principal mensagem. O deputado Frank tinha muito mais poder do que o presidente Underwood. Principalmente […]

por Leonardo Trevisan
19/11/16

Leonardo Trevisan
Donald Trump provavelmente assistiu House of Cards. A dúvida é se entendeu a principal mensagem. O deputado Frank tinha muito mais poder do que o presidente Underwood. Principalmente em termos de transformar intriga em fato. Quem ocupa o Salão Oval tem que fazer o inverso, desfazer a intriga por meio de fatos.

Aqui está o maior problema da era Trump, como a “entrega” das promessas de campanha já demonstra. Não só na hora de montar o governo, mas de se relacionar com o mundo. Este “relacionar” quer dizer, entre outras coisas, por exemplo, comércio. O que significa , dinheiro. Isto, o empresário Trump entende muito bem.

A melhor prova dessa compreensão foi a inesperada visita de ontem do premiê japonês Shinzo Abe a Nova York, o primeiro líder internacional recebido por Trump. Escondido nessa “visita” está a diferença entre intriga e fato na Parceria Transpacífico, o TPP. Na saída do encontro, Abe foi bem direto na avaliação: “como resultado das conversações estou convencido que o sr. Trump é um líder em que se pode ter grande confiança”.

O motivo de tanta confiança do primeiro ministro japonês é bem claro: China! O poder chinês olhou apenas a realidade e observou que as bravatas de campanha iriam custar bem caro e que ela, China, poderia tirar um bom proveito delas.

O TPP, na versão desenhada na era Obama, excluía a China (embora fixasse um tempo para aceita-la) e definia que o mercado das 12 maiores economias asiáticas ficaria muito mais próximo dos EUA do que de Pequim. Por exemplo, o produtor agrícola norte-americano venderia três vezes mais em cinco anos do que vende hoje para essas 12 economias. Em troca, o mercado americano estaria mais aberto para produtos dessas economias asiáticas em detrimento do que hoje é domínio quase exclusivo chinês.

Se Trump levar a cabo essa ruptura do TPP será excelente negócio para a China. Aliás, hoje, sábado, na conferência dos países da Ásia Pacífico, que acontece este ano em Lima, no Peru, a estrela foi o presidente chinês Xi Jinping, como mostrou matéria do site do The New York Times.

A fala de Xi foi claríssima: se Trump quer frear o livre comércio nós seguiremos sem ele, “nós não nos fecharemos, vamos nos abrir mais”. A resposta expressa ao protecionismo americano foi dada por Xi na presença dos 12 líderes dos países que assinaram o TPP.

Em outras palavras, a China já se ofereceu para substituir a liderança americana no comércio mundial. Uma liderança absoluta chinesa na Ásia ameaça em todos os aspectos o Japão. Foi exatamente isso que o primeiro ministro Shinzo Abe foi perguntar a Trump. Não foi por outro motivo que no dia seguinte da vitória republicana a Dieta, o parlamento japonês, sem surpresas, nem vacilações, ratificou por maioria absoluta o TPP.

O Congresso americano, com todos os interesses econômicos representados, fará o necessário para que os produtores americanos não percam mais espaço para os chineses no mundo todo. Especialmente na parte do mundo que mais irá crescer nas próximas décadas, a Ásia.

O discurso público é um, mas a conversa privada com o premiê japonês foi outro, bem outro, motivando a irônica frase de Abe de que Trump é um líder “de confiança”. A realidade do comércio internacional exige fatos e não intrigas, como o “presidente” Frank Underwood também rapidamente descobriu.

Nada é muito diferente no front interno. A nomeação de três conservadores ultra radicais para cargos operacionais, secretario da Justiça, comando da CIA e conselheiro de Segurança Nacional, esconde a difícil escolha do nome do secretário de Estado, algo mais do que o correspondente nosso de ministro das Relações Exteriores. Esses três cargos entregues a radicais extremados “obedecem” diretrizes, enquanto a secretaria de Estado “formula políticas”. E as opera.

Esse é o ponto. Se Trump for “obrigado” a nomear para secretário de Estado Mitt Romney, ex-candidato republicano, critico feroz da hipótese Trump no partido, na prática, estará entregando a formulação de política de volta à cúpula do Partido, ou seja, aceitando o controle do Congresso. A mídia americana especula forte com o nome de Romney. Para tentar conter esta óbvia imagem, antecipou as nomeações operacionais bem radicalizadas.

A conferir nos próximos dias… Sem esquecer que o cargo negado ao “deputado” Frank Underwood foi exatamente esse: o de secretario de Estado. O resto a série contou… Será que o Congresso atual é muito diferente daquele descrito no House of Cards? A conferir … de novo…


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