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Na China, o consumidor “baofahu” faz o mundo pensar em expansão para 2017

Leonardo Trevisan De novo, não aconteceu o previsto. Nos dois primeiros dias úteis do ano, as bolsas no mundo inteiro avançaram. No primeiro dia, a alta foi bem forte – […]

por Leonardo Trevisan
05/01/17

Leonardo Trevisan
De novo, não aconteceu o previsto. Nos dois primeiros dias úteis do ano, as bolsas no mundo inteiro avançaram. No primeiro dia, a alta foi bem forte – na Bovespa superou 3,7% – e, ontem, as bolsas ficaram estáveis, sem devolver o lucro do dia anterior. A maior parte das previsões sinalizavam exatamente o contrário. O principal motivo da subida é bem conhecido: China. Embora alta no petróleo também tenha ajudado.

Antes de traçar cenários muito dramáticos para 2017 é melhor prestar um pouco mais de atenção no que efetivamente ocorre na China nos últimos tempos. As bolsas dispararam porque o Índice de Gerentes de Compras (o PMI da consultoria internacional Markit) alcançou em dezembro o maior índice dos últimos seis anos. O PMI chinês ficou um ponto percentual a frente de qualquer cotação prévia . O PMI é relevante porque sinaliza, a grosso modo, os pedidos de insumos já feitos pelos gerentes, ou seja, dá sinal real do ritmo de produção.

Como mostrou artigo do Financial Times de 4/1, assinado por Gabriel Wildan e Yuan Yang, o crescimento do PIB chinês de 2015 foi responsável, sozinho, por um terço da expansão do PIB Mundial. Em outras palavras: as bolsas subiram porque muito gente acha que se a China cresce, o mundo acompanha.

A última edição da The Economist de 2016 já tinha antecipado a tendência de revisão para cima das expectativas sobre China para 2017, baseadas em uma série de evidências sobre o comportamento da economia chinesa durante o ano passado que são:
1 – a longa deflação chinesa, persistente ao longo dos últimos 54 meses, finalmente ”inverteu a tendência” e os preços de atacado voltaram a subir, com os lucros das empresas voltando a expansão no segundo semestre de 2016.
2 – as promessas oficiais de reverter a superprodução de carvão e aço, bem como a redução da oferta de casas “não vendidas” deram certo ao longo de 2016.
3 – no terceiro trimestre de 2016 já estavam bem definidas as tendências de que a expansão oficial prevista de 6,7% do PIB neste ano seria “efetivamente alcançada”.

Na raiz dessa expansão, como notou a Economist, está o bom resultado no controle da bolha imobiliária por Pequim. O governo definiu, desde meados de 2015, um conjunto de restrições determinando “quem pode comprar casa, onde e com que tipo de hipoteca”. A revista mostrou que a “micro administração” regulou a baixa oferta de casas e agiu sobre a bolha nos preços dos imóveis nas grandes cidades chinesas, ajustando o mercado da construção civil ao perfil regional da população.

Na prática, o governo chinês dirigiu a procura de baixa renda para fora do mercado das cidades maiores, regulando a oferta e controlando preço. Pequim, como apontou a Economist, enfrentou o risco desse “controle” e ganhou a aposta. Controlada a bolha imobiliária, a economia ganhou mínima estabilidade para preservar expansão.
A íntegra do artigo da Economist está no endereço:
www.economist.com/…/21712139-risks-lurk-outside…

A economia chinesa, na verdade, também avançou no troca do modelo. O artigo do Financial Times acima mencionado, mostrou cenários de como a batalha para estimular consumo está baseada em uma “nova economia”, com forte apelo para a expansão do setor de serviços. Com o governo sinalizando, lentamente, o declínio do setor de aço e carvão.

O FT escolheu três cidades para acompanhar esta “troca” de modelo. Em Shandong o jornal observou um contexto de estímulo de consumo, até de iates, sim iates, que tem preço mais barato do que um apartamento de dois dormitórios em Pequim.

Depois, em Sichuan, outro cenário. o de cidade “estagnada”, mas com fábricas “trocando de produto”, com forte apoio de financiamento oficial, para “não virar Japão, da década perdida”. O terceiro cenário, o de Shanxi, em que o consumidor “baofahu” (o que vive explosão de riqueza sem uma mínima sofisticação cultural e financeira) é o motor da chegada da economia de serviços na China. Há serviços em expansão para todos os “baofahu”, os que enriqueceram muito e para os que enriqueceram só um pouco.

É este conjunto de cenários que empurra a economia chinesa para um crescimento, se não pleno, ao menos perto das melhores expectativas. O PMI da Markit só captou essa realidade . E as bolsas perceberam.

Sem esquecer o essencial em todo o processo chinês. Em outubro, como mostrou com todo rigor a Economist, começa o “grande encontro quinquenal” do Partido, que definirá o poder das atuais lideranças, especialmente o poder de escolha do sucessor de presidente Xi Jinping daqui a cinco anos. Ou seja, 2017 não pode ser um ano de crise na China. Custe o que custar.

Como sempre, desde que o mundo é mundo, a política decidirá a economia. Não será diferente neste ano na China. E o mundo agradece.

Portanto, convém ter alguma cautela com previsões muito apocalípticas sobre 2017 nas economias emergentes dependentes do desenvolvimento chinês. Esta é uma das razões, talvez a maior, que levaram o economista chefe do itaú, Mario Mesquita, a falar (Valor Econômico de 22/12) em um crescimento de 1,5% no País em 2017 e de 4% em 2018. Esta previsão é quase três vezes maior do que a mediana das previsões acumuladas para o período.

O contexto chinês, dono de mais de um terço das expectativas de expansão do PIB mundial, sinaliza realidade menos dramática. As bolsas captaram isso, com a volatilidade de sempre. Talvez, fique melhor vender um pouco menos de tragédia para a economia neste ano. A prudência, mais os dados de Pequim, sugerem esse cuidado.


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