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“My Way” traz a história de Berlusconi e gera paralelos com Trump, Putin e “Cidadão Kane”

Claudia Bozzo O timing é perfeito. O lançamento do documentário “My Way”, pelo serviço de streaming Netflix chega em meio à convulsão criada pela divulgação de centenas de nomes de políticos envolvidos […]

16/04/17

Claudia Bozzo
O timing é perfeito. O lançamento do documentário “My Way”, pelo serviço de streaming Netflix chega em meio à convulsão criada pela divulgação de centenas de nomes de políticos envolvidos em corrupção no Brasil e na data próxima aos  100 dias do presidente Donald Trump na presidência dos Estados Unidos. Em todas as mentes, um nome é lembrado: Sílvio Berlusconi, o “Cavalieri”, que durante vinte anos dominou a cena política italiana, e como diz reportagem do jornal La Stampa, “mostrou ser Trump antes de Trump”.

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 “My Way” é de 2016 e baseia-se em livro do jornalista norte-americano Alan Friedman – uma biografia autorizada pelo próprio político – que lhe diz, logo no início do documentário:

“Durante anos, muitos jornalistas pediram-me para lhes contar a história da minha vida. Sempre recusei. Aceitei colaborar com Alan Friedman por confiar nele. Como disse Steve Jobs ao seu biógrafo: ‘eu contarei minha história, você escreverá o que quiser’”. Bom, quem assistir “My Way” verá que a adulação não inibe as investidas de Friedman. Nem muda a história.

É um trabalho imperdível. Friedman, que decidiu morar na Itália tem outros importantes livros em seu currículo. Ainda jovem, foi colaborador da administração Jimmy Carter (1987-1981) .  Depois correspondente do jornalFinancial Times, enviado especial do International Herald Tribune, editorialista do Wall Street Journal e produtor e diretor de vários programas de TV na Grã-Bretanha, Estados Unidos e Itália (onde trabalhou na RAI e Sky).

Ao todo, realizou 28 horas de diálogos com o político, registradas em vídeo e incluindo centenas de outras entrevistas, realizadas num período de 18 meses, que somadas completam 100 horas de conversas. O Leone Film Group, dirigido pelos filhos do cineasta falecido em 1989, Sergio Leone (“Era Uma Vez no Oeste” de 1968, “Por um Punhado de Dólares” 1964 e “Era uma vez na América”, 1984, entre outros), adquiriu direitos sobre o livro. O acordo garante que Raffaella e Andrea, filhos de Leone, ficarão com 50% dos direitos de distribuição do filme em todo mundo, além da série romanceada, inspirada na história do fundador de Forza Italia.

Friedman mostra de onde veio a fortuna de Berlusconi, criada a partir de empreendimentos imobiliários (mais uma semelhança com Trump, além da exagerada vaidade, temperamento histriônico, e amizades cultivadas em nome do interesse. As entrevistas são feitas em sua “Villa” em Arcore, com 73 hectares de área e uma mansão com 72 cômodos, recheada por obras de arte de valor incalculável. O ex-político tem quartos e quartos, usados apenas para guardar presentes recebidos de outros políticos, de eleitores e prêmios.

Mas não há espaço que contenha seu ego. Chegou à política como “o novo”, e acabou sendo o mandatário que por mais tempo manteve o cargo no período após a II Guerra. Foi ele o responsável pela “americanização” dos meios de comunicação da Itália, por meio de seu império de comunicações, a Mediaset. Ele se orgulha de ter levado “Dallas” e “Dinastia” para a terra de Michelangelo, e a RAI até hoje mantém o look berlusconiano, com toda a breguice de seus programas. Era proprietário do clube de futebol italiano A. C. Milan, até que vendeu o clube por R$ 2,5 bilhões a um grupo chinês.

Muitos críticos, italianos ou não, consideraram o documentário meio déjà-vu e até mesmo pouco crítico em relação ao retratado. Claro, faltou a virulência de um Nanni Moretti em “Il Caimano” (nome com o qual a esquerda italiana define o político, considerado um crocodilo, ou o predador por excelência). Mas é muito interessante a reconstrução do poderoso – que em muitos aspectos remete também ao personagem retratado em “Cidadão Kane”, obra-prima de 1941, de Orson Welles, que retrata o magnata da mídia norte-americana, Willian Randolph Hearst.

Além disso, é muito rica a pesquisa de imagens, o registro de passagens da vida do retratado, sempre à frente dos holofotes. Em companhia de outros políticos, como Bettino Craxi, o socialista que de 1983 a 1987 foi primeiro-ministro durante uma das fases mais turbulentas da turbulenta Itália, na crise do Banco Ambrosiano e que morreu no exílio na Tunísia aos 65 anos, além de Marcello Dell’Utri, suspeito de ligações com o mundo mafioso. Outro de seus grande amigos – o paralelo chega a ser irônico – é Vladimir Putin, que o “Cavaliere” sempre teve em alta estima.

Embora com mais luvas de pelica, o documentário lembra ainda o famoso encontro de Richard Nixon e David Frost. Friedman entrevista autoridades de peso, como o ex-premier espanhol José Luiz Zapatero e José Manuel Durão Barroso, atual presidente do Banco Goldman Sachs International, que na época da queda de Berlusconi era presidente da Comissão Europeia (2004 a 2014). As câmeras o acompanham ao vestiário do Milan, onde conversa com os jogadores.

Há até mesmo uma incursão ao famoso recinto onde eram realizadas as orgias das quais supostamente Berlusconi participava (ele chegou a ser condenado por manter relações com uma menor de idade) o famoso quarto do “bunga bunga”. O rumo ao declínio, depois de ocupar o cargo de primeiro-ministro em três períodos, mostra um homem que se considerava acima de tudo e todos, quase fragilizado. Ego é ego, mas tem uma hora em que o personagem percebe que é história, passado. Tomara.


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