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Mirando todos os gostos, Netflix não descansa

Claudia Bozzo  O trabalho de um jornalista às vezes se parece com o de um escritor de ficção científica. E existe um exemplo bem próximo para explicar essa comparação. As […]

11/02/19

Claudia Bozzo 

O trabalho de um jornalista às vezes se parece com o de um escritor de ficção científica. E existe um exemplo bem próximo para explicar essa comparação. As primeiras notícias sobre uma nova “poção mágica” que estava em fermentação no vale do silício, no final dos anos 1980, chamado “video on demand” ou “streaming” trazia a  complicação adicional de ser difícil de traduzir. E pode, por enquanto, ser resumida em uma marca: Netflix.

Claro, existem outras, em funcionamento e em gestação pois a ideia deu tão certo que pode até faltar espaço no barco. Amazon, Disney, HBO, todos querem uma parte desse rico mercado que só cresce, no planeta.

Hoje vemos anúncios de filmes da Netflix no cinema, e o Oscar e o Bafta e outras premiações incluíram um dos filmes do serviço em sua premiação de 2019: “Roma” do mexicano Alfonso Cuarón (o mesmo de “E sua Mãe Também” de 2001 e “Gravidade” de 2013) , já levou seus três prêmios no Golden Globe: melhor diretor, melhor filme estrangeiro e melhor roteiro) Em 2018 a Netflix entrou gerou polêmica, ao tentar inscrever filmes no Festival de Cannes. A direção do evento francês decidiu proibir a participação de obras que não tivessem sido exibidas nos cinemas da França.

Com mais de 137 milhões de assinantes em todo o mundo, a Netflix não descansa, pois sabe que nos seus calcanhares está a concorrência, muito da competente. Difícil é acompanhar os muitos lançamentos da plataforma. Que está com peças de primeira linha, para os mais exigentes e para os menos também. Há até novelões, filmes para adolescentes e filmes de autor; séries policiais e filmes da Islândia, Dinamarca, Turquia, Espanha. EUA, França, países nórdicos.

Há séries muito intensas, como a lançada recentemente, “Black Earth Rising”, sobre o genocídio em Ruanda, com uma visão bastante profunda do conflito e revelações que chegaram a ficar de fora de outras produções, como “Hotel Ruanda”. Trata dos cem dias de 1994 que resultaram na morte de 800 mil pessoas. A série, imperdível, coloca muitos pingos nos seus devidos is, como participações de países, omissões, e finalmente, uma visão menos maniqueísta sobre os hutus e os tutsis.

“O Jornal”, por exemplo, é uma série croata, e bem interessante, mostrando os interesses que levam à aquisição de um periódico e os conflitos internos na luta por cargos e prestígio. O islandês “Trapped” tem a dose certa de bons intérpretes, roteiro inteligente e bom domínio da técnica. Sem contar “Billions”, série sobre o mercado financeiro, com excelentes atores, Paul Giamatti, Damian Lewis e Maggie Siff, que já está de viagem marcada para a quarta temporada. Outros que vão partir para outra etapa são “The Affair”, com  Dominic West, Ruth Wilson e Maura Tierney que já se lança para a quinta temporada.

Da França, veio uma série bem simpática, sobre uma agência de atores, chamada “Dix pour Cent”, o valor da comissão cobrada pela intermediação com estúdios e diretores pelos seus representados, os 10%. Não deixa de ser leve, em comparação com outras, mas isso não lhe tira o mérito da originalidade. Há a participação de atores interpretando a si mesmos – ou a persona que a série lhes confere – como Isabelle Hupert, Jean Dujardin, Monica Belluci, Gerard Lanvin, Juliette Binoche, Nathalie Baye, Fabrice Luchini e muitos outros. Sem contar o competente elenco fixo da história: Camille Cottin, Thibault de Montalembert, Grégory Montel, que fazem parte da equipe de sócios ou funcionários da agência. É outra que já anunciou uma nova temporada – a quarta – para 2020.

São tantas as novidades, que provavelmente por falta de “espaço” algumas séries tiveram episódios retirados, como a excelente “In the Line of Duty”, agora sem a primeira e a segunda temporadas. Pena, pois às vezes é até bom rever episódios tão bem escritos e interpretados. Mesmo que a vida seja curta demais para se assistir um filme duas vezes, tantas as ofertas.


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