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“Minha Obra-Prima”, mais uma prova de como é bom o cinema argentino

Claudia Bozzo  “Que te compre quem te conhece”. Usada pejorativamente, a expressão ganha outro valor quando se escolhe um filme pelo seu diretor. E sem dúvida, o currículo do argentino […]

15/04/19

Claudia Bozzo 

“Que te compre quem te conhece”. Usada pejorativamente, a expressão ganha outro valor quando se escolhe um filme pelo seu diretor. E sem dúvida, o currículo do argentino Gastón Duprat, do qual há pouco tempo vimos “O Homem Ilustre” (2016) recomenda que não se deixe escapar “Minha Obra-Prima” (2018). O filme é uma imersão na fogueira de vaidades, riqueza e superficialidade que costuma rondar o mundo de galeristas, artistas e colecionadores de arte.

Duprat dirigiu outro filme marcante, “O Homem ao Lado” (2009) sobre o morador da única moradia projetada por Le Corbusier em Buenos Aires, que vê um vizinho derrubar parte de uma parede e abrir uma invasiva janela ao lado de seu imóvel.

Agora, numa comédia com seus lances imprevistos, ele fala da longa amizade entre um pintor, que passa por uma fase decadente, Renzo Nervi (interpretado por Luis Brandoni) e o galerista Arturo Silva (por Guillermo Francella). Os dois atores jamais haviam trabalhado antes com Duprat e seu parceiro em outros filmes, Mariano Cohn está neste como produtor.

O filme faz uma aposta no humor, com extrema sutileza e bom gosto, mostrando as desesperadas tentativas do galerista Arturo, de tornar as obras de Renzo Nervi relevantes de novo, claro, visando lucrar com ele. O artista, porém, está mais preocupado com outras coisas: jovens garotas, seus gatos e cachorros, um bom vinho, irreverência e revolta. Imerso em seus próprios tormentos, o artista não deixa opção ao galerista. Para lucrar com a arte de Nervi, ele vai precisar ser criativo. É um artista, na sua atividade, e é melhor parar por aqui, pois não se pretende criar nenhum spoiler.

De qualquer forma, é um filme bem argentino, ou seja, tem um roteiro muito bem escrito, diálogos inteligentes, uma ironia fina, aguçada e excelentes atores.

Como são bons de cinema esses nossos vizinhos! “Minha Obra-Prima” também tem uma narrativa direta, ágil e a sempre presente amizade entre personagens, misturando toques de mau-humor, afeto, sensibilidade.

No roteiro há a importante presença de Andrés Duprat, irmão do diretor, que atualmente ocupa o cargo de diretor do Museu de Belas Artes de Buenos Aires, ou seja, alguém bastante familiarizado com o universo dos personagens e da história.

Não é o único filme argentino em cartaz, por sorte. Outro é “Um Amor Inesperado” (2018), com Ricardo Darin e Mercedes Morán, dirigido por Juan Vera, que conta em mais de duas horas a história de um casal que sente o solo fugir de seus pés após a partida do filho para a Espanha, onde foi estudar. É uma peça de teatro, sem dúvida, e os dois atores estão na sua melhor forma. 

Bom, falar o quê de Darin? É uma unanimidade. Mercedes Morán, que está no outro filme argentino em cartaz, “Família Submersa” (2019), dirigido por Maria Alché, já foi vista aqui em “Clube da Lua” (2004), de Juan José Campanella, ao lado de Darín e em um filme na Mostra de Cinema, chamado “Sueño Florianópolis” (2018). A história é a de uma família argentina que vem passar as férias na capital catarinense. O filme acabou não entrando (ainda) em circuito comercial, embora conte com bons atores brasileiros no elenco, como Andréa Beltrão e Marco Ricca e tem grandes chances de ser um dos queridinhos em bilheteria.


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