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Manifesto desdém pelo Mercosul

Klaus Kleber Durante a estada de oito chefes de governo sul-americanos em Santiago, na semana passado, para assinatura do projeto de criação de um fórum de desenvolvimento, o Prosul, que […]

25/03/19

Klaus Kleber

Durante a estada de oito chefes de governo sul-americanos em Santiago, na semana passado, para assinatura do projeto de criação de um fórum de desenvolvimento, o Prosul, que deve substituir a desastrada Unasul, não houve nenhuma iniciativa para promover um encontro em separado entre os presidentes do Brasil e da Argentina, os maiores parceiros do  Mercosul.

Pode-se alegar que isso não ocorreu por falta de tempo ou agenda apertada ou porque o encontro tinha um objetivo maior. Mas o problema não parece ser falta de empatia entre o presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Argentina, Mauricio Macri, não havendo conflito ideológico entre eles. De qualquer forma, não há encontro previsto entre os dois mandatários, seja em Brasília ou Buenos Aires. A próxima visita de Bolsonaro vai ser a Israel.

O que há é um manifesto desdém do atual governo pelo Mercosul, visto talvez como uma coisa da “velha política”.      A nova diplomacia brasileira, se é que as canhestras manobras merecem essa designação, não parece desejar aproximação com o Mercosul, cujo maior sustentáculo são as relações comerciais Brasil-Argentina.

Prova disso foi o anúncio, após o encontro entre os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, na semana anterior, de concessão pelo governo brasileiro uma cota de importação de 750 mil toneladas de trigo procedentes dos EUA, sem cobrança de tarifas alfandegárias, que eram de 10% ad valorem. Para dourar a pílula, foi divulgado que haverá “mais espaço” no mercado brasileiro para importações de trigo do Canadá, Rússia e outros países.

O problema é saber como isso pode afetar diretamente o comércio com a Argentina, no qual as importações e trigo têm um papel essencial. Também pode prejudicar, a produção nacional de trigo que o governo vinha procurando estimular por meio de pesquisas da Embrapa.  

Dos 11 milhões de toneladas de trigo em grão ou em farinha consumidos no Brasil por ano, a estimativa é que  5,4 milhões deverão ser produzidos internamente na safra 2018/2019, segundo dados de fevereiro da Cia. Nacional de Abastecimento (Conab). Os restantes 5,6 milhões de tonelada são importados, sendo que 77% deverão provir Argentina   

Outro ponto a notar é que o trigo argentino vem se tornando mais acessível aos importadores brasileiros. No bimestre de janeiro e fevereiro, o Brasil importou, segundo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq), 82,64 mil toneladas de farinha de trigo, o que corresponde a 61% do total importado em 2017 (135,67 mil toneladas).  Segundo o Cepea, o crescimento dessas importações se deve à “política fiscal adotada pelo governo argentino no setor trigo”.

Produtores brasileiros de trigo também estão preocupados, pois a cota concedida aos EUA pode significar desestímulo ao plantio aqui, que está em crescimento.

A Argentina atravessa uma profunda crise econômica e o Brasil vem ajudando a vencê-la, comprando trigo de que necessita. Seria este é o momento adequado para isentar de tarifas a importações do produto vindo dos EUA?  E, o que é pior, a isenção foi feita sem qualquer contrapartida concreta por parte de Washington.


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