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Mais emoção na realidade que nas telas

E não é que a realidade está até mais dramática que a ficção? Com desânimo, ler e reler a relação de filmes em cartaz não traz qualquer interesse. Até um […]

01/10/18

E não é que a realidade está até mais dramática que a ficção? Com desânimo, ler e reler a relação de filmes em cartaz não traz qualquer interesse.

Até um filme dos irmãos Taviani, “Uma Questão Pessoal” decepciona, como um exercício estético em tom frio e distante sobre o dia a dia de resistentes italianos. O que realmente choca no filme é o fato de irmãos matarem uns aos outros em nome do fascismo e contra a ocupação da Itália.

O ódio com que os defensores da invasão alemã e os “partigiani” se enfrentam – pessoas da mesma cidade ou vilarejo, falando o mesmo dialeto, vai saber se até mesmo parentes, infelizmente remete ao momento que vivemos agora. Algo que o tempo não vai curar, por certo.

Controle remoto nas mãos, passemos ao noticiário sobre os Estados Unidos. Esta semana o drama despencou pesadamente. Um candidato ao cargo de juiz da Corte Suprema dos Estados Unidos, Brett Kavanaugh, entra em queda livre na rede do movimento #MeToo e responde perante uma comissão do Congresso americano se é inocente ou culpado de uma tentativa de estupro, há 36 anos, contra uma antiga colega de escola, Christine Blasey Ford. O final, como na ficção, fica adiado e os próximos capítulos incluem uma investigação do FBI e nova votação por parte dos congressistas.

Um evento que Hollywood tornou possível, a partir dos acontecimentos que vieram à tona em função das denúncias contra o ex-poderoso Harvey Weinstein, produtor acusado de abuso por dezenas de importantes atrizes de Hollywood – e europeias também – que estão na origem até mesmo das manifestações contra um dos candidatos à presidência no Brasil Jair Bolsonaro, alvo de manifestações no sábado em muitas cidades brasileiras e em várias capitais no exterior.

A sessão do Congresso americano teve lances “cinematográficos”, sem dúvida. Aparência frágil, mas com uma determinação visível, a professora Blasey Ford disse estar 100% segura de que os fatos que narra ocorreram da forma que relata.

Depois, vem Kavanaugh, que fazendo jus à escolha do presidente Donald Trump, deixa um rastro de “winner” após uma supostamente tocante lembrança dos valores herdados do pai, como a proeza de anotar tudo que fazia desde os 14 anos, em cadernos que funcionavam como diário. Seu depoimento foi dado entre muitos copos de água e reprimidas tentativas de choro e lágrimas engolidas. Ele também se declarando 100% inocente.

O conservador que pode vir a integrar a corte suprema dos Estados Unidos e reescrever muitos dos avanços conquistados até hoje, entre eles a famosa decisão “Roe versus Wade” de 1973, no qual a Corte decidiu por 7 a 2 pela aprovação do aborto – e criou jurisprudência, descriminalizando a terminação da gravidez – para Norma McCorvey.

Conhecida pelo pseudônimo Jane Roe, ela teve negado seu pedido de aborto em Dallas, no Texas, pelo promotor distrital Henry Wade. O nome de ambos batiza a nova era que agora está sob ameaça, como muitos dos avanços obtidos pelos Estados Unidos, pela postura de um presidente que, segundo o comentarista da CNN e do The Washington Post, Fareed Zacaria, “precipita a chegada de um mundo pró-americano”.

O analista refere-se às medidas adotadas pelo presidente num nível global. Mas em seu próprio país ele atua como uma força pela divisão entre brancos e negros, entre vencedores e perdedores, uma classificação tão cara aos semelhantes a ele.

Bem, resta a Netflix, pois no seu catálogo de lançamentos recentes há um com o título “Roe versus Wade”. Muito oportuno.


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